PUBLICIDADE
IPCA
0,26 Jun.2020
Topo

Quem cuida melhor de seu dinheiro? Veja regras, formação e profissionais

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

03/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Saiba as diferenças entre agente autônomo, consultor financeiro e planejador financeiro
  • Profissionais que atuam no mercado de investimentos ganham espaço no mercado brasileiro
  • Junto com avanço dessas profissões, cresce debate sobre conflito de interesses

Há dez anos, 100% dos investimentos dos brasileiros estavam em bancos ou corretoras de bancos. Hoje cerca de 10% dos R$ 4 trilhões em aplicações no país estão em corretoras, gestoras de recursos e instituições financeiras que operam em plataformas digitais. Com essa migração, ganharam espaço novos profissionais: agente autônomo, consultor financeiro e planejador financeiro.

Mas o maior leque de opções criou novos conflitos entre as instituições financeiras e provocou novas dúvidas entre os investidores: afinal, qual o profissional mais indicado para cada pessoa? O tema veio a público com a disputa entre o banco Itaú e a corretora XP. Para tomar uma decisão, o primeiro passo é conhecer o básico de cada profissional. Veja abaixo.

Agente autônomo de investimento (AAI)

O que faz: Atua de forma autônoma, mas é legalmente representante comercial de instituições financeiras, como as corretoras. Eles vão em busca de novos clientes para a corretora, podem passar informações sobre produtos e serviços e registrar as ordens de investimentos de seus clientes. Mas não podem recomendar investimentos, nem administrar carteira dos aplicadores.

Autorização: Precisam prestar exame para ter credenciamento pela Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). No Brasil, há cerca de 12 mil agentes certificados.

Quem paga: Quem paga os serviços do agente autônomo é a instituição financeira. Ele ganha uma comissão por produto ou serviço vendido ao cliente. Por exemplo, quando convence um cliente a investir em um certo fundo, o agente autônomo recebe da corretora uma comissão.

Consultor de Investimento

O que faz: Quem o contrata é o investidor. O consultor financeiro pode explicar os investimentos e oferecer recomendações sobre os produtos. Mas na hora de fazer a aplicação, é o investidor que tem que dar a ordem. Ou seja, o consultor financeiro não pode dar ordens de investimentos no lugar do cliente.

Autorização: Para atuar, precisa de certificado emitido pela Anbima e autorização pela CVM.

Quem paga: O consultor financeiro é pago pelo cliente. Pode ser uma taxa fixa mensal ou anual, normalmente um percentual do que o investidor tem para aplicar.

Planejador financeiro

O que faz: Esse profissional não trata apenas de investimentos, mas de toda a vida financeira de uma pessoa. O objetivo dele é ajudar a pessoa e cuidar do orçamento, como começar a fazer poupança e, então, a investir.

Autorização: Precisa de um certificado chamado Certified Financial Planner (CFP), emitido pelo Financial Planning Standards Board (FPSB), cuja certificação é realizada no Brasil pela Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar). Segundo a entidade, há cerca de 5.000 desses profissionais no país.

Quem paga: Assim como o consultor financeiro, o planejador financeiro também é pago pelo cliente, em uma taxa calculada a partir do tamanho da carteira.

Qual escolher?

A escolha por esse ou aquele profissional depende do perfil do cliente: se ele conhece algo do mercado ou se é absolutamente leigo no assunto; se tem tempo para se dedicar às tarefas necessárias para fazer os investimentos - pesquisar produtos, comparar taxas, entrar em contato com as corretoras, checar saldos - e se gosta ou não de autonomia para investir.

Para uma família que nem sequer consegue poupar antes de começar a investir, o planejador financeiro faz mais sentido que um consultor financeiro. Por outro lado, uma pessoa que já conhece o mercado e até sabe tipos de produto nos quais pretende investir, o consultor financeiro e o agente autônomo aparecem como opções.

Mas mesmo entre eles há diferenças importantes.

Conflito de interesses

O que todo aplicador precisa prestar atenção é nos conflitos de interesses. Um agente autônomo indicou um fundo de investimento porque é a melhor opção para o cliente, ou porque a comissão recebida por ele da corretora era a mais alta? Esse é um tipo de dúvida que já existe quando um gerente de banco sugere por exemplo, um CDB: ele fez isso porque era o mais indicado para o correntista, ou por que o produto fazia parte das metas que precisavam ser batidas pela casa?

"A verdade é que tanto o agente autônomo como o gerente de banco são prepostos de uma instituição financeira", afirma Roberto Lee, CEO da Avenue, corretora baseada em Miami, nos EUA, onde as regras para essas atividades são mais amplas que no Brasil.

O importante é que as pessoas tenham conhecimento dos modelos de forma transparente e que tomem a decisão a partir disso.
Tito Gusmão, CEO da corretora e gestora de recursos Warren

O que o investidor deve perguntar

Saber a comissão que o agente recebe de uma corretora para indicar um produto pode não ser suficiente, afirma Roberto Lee, CEO da Avenue. "Tem que ver se o produto é o mais indicado para o cliente naquele momento da vida da pessoa. E quais eram outras opções disponíveis para comparar", diz.

Para que a relação entre cliente e profissional de investimento seja a mais transparente possível, é importante que o cliente saiba quanto o agente está ganhando e quanto custa para a corretora ou plataforma de investimento oferecer aquela transação, diz CEO da gestora de recursos Vitreo, Patrick O'Grady.

Não tenha vergonha ou medo de perguntar como ele, o profissional, vai ganhar dinheiro com o serviço.
Patrick O'Grady, CEO da gestora de recursos Vitreo

O vice presidente da Abaai (Associação Brasileira dos Agentes Autônomos), Eduardo Siqueira, também CEO da Acqua Investimentos, empresa de agentes autônomos, diz que toda profissão, de qualquer atividade, tem pontos de conflitos entre prestadores de serviços e clientes. Mas que isso tem como ser resolvido.

Toda profissão tem conflito de interesses. O que perpetua a relação são a transparência e a ética.
Eduardo Siqueira, vice presidente da Abaai (Associação Brasileira dos Agentes Autônomos

Como é fora do Brasil

O CEO da Vitreo, Patrick O'Grady, aponta que na Europa a legislação é muito atenciosa com as relações comerciais de agentes de investimento e as instituições financeiras. A maior preocupação é com as comissões recebidas pelos profissionais quando indicam esse ou aquele investimento. No Reino Unido, o pagamento de comissão por produto vendido é até proibido.

Nos Estados Unidos há os dois modelos - do agente autônomo, ou broker, que recebe comissões; e do consultor que recebe pagamento do cliente. No último dia 30 de junho entrou em vigor uma nova legislação, chamada de Rest Investment Advisor (RIA), que aumenta a lista de informações que os profissionais de mercado pagos pelas instituições financeiras - os brokers - precisam abrir aos clientes.

Eles terão que mostrar de forma bem clara a taxa que recebem por cada produto de investimento que recomendam aos clientes; a taxa que ganham em outros produtos semelhantes que ele não recomendou; e ainda comprovar que a sugestão dada atende ao melhor interesse do cliente.

Se o agente não demonstrar que seguiu todo o procedimento exigido de transparência, ele será investigado pela SEC (órgão regulador do mercado de capitais nos EUA), com sanções que vão da suspensão de multas a sansão da atividade e até um posterior processo civil.

XP versus Itaú

A história da XP Investimentos, que teve uma polêmica sobre transparência com o banco Itaú, está bastante ligada à dos agentes autônomos, diz Gabriel Leal, sócio da empresa. Mas ele afirma que os outros profissionais também estão ganhando espaço na maior plataforma independente de investimentos.

Todas as formas de serviços têm alguma forma de conflito. O que vai diminuir o risco de conflito são a ética e a transparência.
Gabriel Leal, sócio e chefe da área comercial e de relacionamentos com clientes da XP Investimentos, Gabriel Leal

Para o executivo da XP, que usou as mesmas expressões que o representante da Abaai para argumentar a favor da transparência, o debate sobre conflitos de interesses deveria chegar aos bancos. "Seria muito importante esse assunto também chegar aos bancos, para a gente saiba por exemplo quais são as metas dos gerentes para produtos financeiros", diz Leal. "A verdade é que os bancos não têm DNA de investimentos, são produtos mais fechados e restritos, oferecidos por profissional que é um generalista", afirmou o sócio da XP.

No fim de junho, XP entrou em debate com o Itaú, depois que o maior banco privado brasileiro fez uma campanha de publicidade criticando a qualidade de serviço oferecida pelos agentes autônomos.

O diretor de produtos de investimento e previdência do Itaú Unibanco, Claudio Sanches, rebateu o executivo da XP. "Aqui não tem conflito de interesse", afirmou. Segundo ele, a remuneração dos gerentes do banco não é dada pelo tipo de produto vendido, mas pela captação alcançada.

Além disso, afirma Sanches, as indicações de produtos são feitas a partir de modelos construídos por profissionais com o uso de algoritmos que apontam o investimento mais indicado para cada cliente individualmente. E em termos de formação, diz o executivo do Itaú, os gerentes e os cerca de mil especialistas que a instituição também contrata para tratar de investimentos são todos certificados.

Detalhe nessa discussão: por meio da ITB Holding Participações Ltda, o Itaú Unibanco detém 32,5% do controle da XP Inc, dona das empresas do grupo XP.

Finanças pessoais