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Temor sobre dívida pública baixa rendimento de Tesouro prefixado; e agora?

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João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

03/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Incertezas na economia afetam preço de títulos prefixados do Tesouro
  • Recomendação dos consultores é manter a aplicação até o vencimento para evitar perdas
  • Para quem quer entrar agora, consultores sugerem papéis de mais curto prazo

Títulos de renda fixa negociados no mercado estão com variação negativa no mês, em meio à preocupação com os gastos do governo federal, que precisou elevar despesas para bancar o auxílio emergencial e ajudar famílias e empresas na travessia da crise, aumentando a dívida pública.

Os papéis prefixados do Tesouro Direto estão com variação negativa média de 0,23% em outubro, segundo os índices Anbima, apesar de ainda manterem ganhos nominais, de 4,38%, em 12 meses. Desse ganho, ainda é necessário descontar imposto e inflação, para se chegar ao ganho real.

Se você tem ou quer comprar títulos prefixados, veja as recomendações de profissionais de mercado.

O que são títulos prefixados?

São produtos de renda fixa com rendimento predeterminado. Quando o investidor compra o título, sabe exatamente qual será seu rendimento nominal na data de vencimento. A taxa desses ativos não depende de outros indicadores, como inflação ou juros futuros. São exemplos os títulos públicos Tesouro Prefixado, as debêntures com remuneração prefixada e CDBs prefixados.

Olhando a composição de uma carteira de investimentos, o título prefixado compõe a parte dos ativos que ajudam a dar uma certa previsibilidade aos investimentos.
Camilla Dolle, especialista em renda fixa da XP Investimentos.

Se é prefixado, por que o preço varia?

O rendimento combinado é garantido se o investidor mantiver o título até o vencimento. Se a pessoa quiser sacar antes, o rendimento dependerá de quanto vale esse título no mercado na data do saque, afinal, o papel terá que ser negociado para o aplicador sacar o dinheiro. E o preço desse papel varia todos os dias.

O que afeta o preço do título prefixado?

Um dos fatores que mais influenciam é a expectativa que os agentes de mercado —investidores, instituições financeiras, empresários, gestores de recursos— têm sobre o que vai acontecer com a Selic, a taxa básica de juros. A Selic está em 2%, e a todo momento o mercado fica considerando se essa taxa vai mudar no futuro ou não. Em geral, quando a taxa sobe, o preço do título prefixado cai e, quando a taxa cai, o preço do título prefixado sobe.

O que mexe com as expectativas de juros?

Hoje, o que mais influencia é a dívida do governo. Quanto maior ela for e quanto mais pagamentos o Tesouro tiver que fazer no curto prazo (até um ano), maior a expectativa de que os juros subam no futuro.

A forma mais comum de o governo tomar dinheiro emprestado no mercado é oferecendo títulos públicos. Se o Tesouro Nacional está com dificuldades para rolar a dívida, ele terá que pagar mais juros para convencer o mercado a comprar esses títulos. É o que está acontecendo agora no Brasil.

Quanto maior for o risco de endividamento crescente do governo, maiores serão as taxas de juros pedidas pelos agentes de mercado ao governo.
Guilherme Cadanhotto, especialista em renda fixa da casa de análise Spiti.

O que fazer com os prefixados agora?

Para quem já aplicou, o melhor é segurar o investimento para não ter perdas.

Se você precisa do dinheiro, a recomendação é acompanhar a variação dos papéis no Tesouro Direto e aproveitar um dia em que os títulos apresentem uma melhora.

Longo prazo rende mais, mas risco também é maior

Os títulos prefixados de longo prazo, como o Tesouro Prefixado 2026 e o 2031, oferecem taxas de rendimento melhores que os de curto prazo, caso do Tesouro Prefixado 2023. Por isso, muitos aplicadores que acessam o Tesouro Direto acabam escolhendo esses produtos mais longos para investir.

Mas aqui também vale a regra de quanto maior o rendimento maior o risco. Os títulos de mais longo prazo são os que mais variam de preço no dia a dia, porque o ajuste diário tem maior peso nas taxas.

É verdade que o aplicador pode ganhar na especulação, vendendo o papel antes do vencimento. Mas isso acontece quando as expectativas do mercado para os próximos anos forem de queda dos juros. Lembre-se: se taxas caem, o preço do papel sobe. E quem tem o título pode se desfazer do ativo por um preço superior ao que ele pagou.

Expectativas é que os juros subam

Mas não é o que está acontecendo agora. Para a ampla maioria dos agentes de mercado, os juros no Brasil devem subir nos próximos anos. Por isso, as taxas futuras estão em alta. E, com taxas em alta, preços ficam em queda.

"Recomendamos prefixado quando existe expectativa de queda de juros ainda não precificada, em um momento de pico de Selic, que está prestes a cair. Mas isso é o contrário do que temos hoje", disse Paula Zogbi, analista da Rico Investimento.

Se for para comprar papel de longo prazo, prefiro focar no IPCA+, que tem correção pela inflação. O risco fiscal pode até diminuir e reduzir a queda dos juros futuros, abrindo espaço para ganhos para quem tem o papel prefixado, mas acho que o risco hoje é maior que a oportunidade.
Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos

E os papéis de curto prazo?

Para quem não tem certeza de que conseguirá manter o dinheiro aplicado até o vencimento, o título prefixado mais recomendado é o de curto prazo, com dois anos, dizem gestores. Se a pessoa tiver que sacar antes, o risco de perda é menor.

"Hoje, prefiro os prefixados de curto prazo, que não tem uma relação grande com o problema fiscal do governo. A comparação nesse caso é mais com a Selic para o próximo ano, que não deve variar tanto. E tem prefixado de dois anos que está pagando 5% ao ano. Por dois anos, a pessoa terá um rendimento ao redor de 10%", disse Cadanhotto, da Spiti.

O que vale para prefixados privados?

Os títulos prefixados privados, como debêntures ou CDBs, se comportam de forma semelhante aos títulos do governo, até porque as taxas pagas pelo governo nos papéis do Tesouro servem como referência para as taxas pagas pelas empresas e bancos em seus títulos.

A diferença é que o investidor precisa ficar atento ao risco de crédito das empresas porque, em tese, ele é maior que o do governo. Afinal, empresas e bancos não podem imprimir dinheiro para pagar seus compromissos, como a União pode.

"A rentabilidade dos prefixados de empresas boas pagadoras oferece previsibilidade para a carteira como um todo, já que não depende de nenhum outro indexador", diz Dolle, da XP Investimentos.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.