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Preço do urânio sobe 33% em menos de um mês; o que explica essa disparada?

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Vinícius de Oliveira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/09/2021 09h30Atualizada em 15/09/2021 13h22

Desconhecido por boa parte dos investidores, o preço do urânio disparou no mundo, passando de US$ 30 para cerca de US$ 40 a libra em menos de um mês, um aumento de mais de 30%, segundo a plataforma de informações financeiras Trading Economics. No ano, o minério acumula alta de 42,62%. A alta é puxada pela procura por energia nuclear, principalmente pela China.

As usinas nucleares usam o minério para gerar energia elétrica. Apesar do avanço, a cotação do urânio está longe da atingida em 2011, de US$ 132. O UOL ouviu analistas para explicar o que está por trás da valorização do minério, se o movimento deve continuar e se vale a pena investir nele. Veja abaixo o que eles disseram.

China produz mais energia nuclear, que usa urânio

Gabriel Roos, assessor de renda variável da Messem Investimentos, explica que o preço do urânio caiu quase 80% depois de março de 2011, quando um tsunami destruiu a usina nuclear de Fukushima, no Japão.

Mas agora há uma valorização acontecendo porque a China precisa produzir mais energia.

"Na China, há uma crise energética por causa de uma onda de frio. O preço do carvão, principal fonte de energia do país, não para de subir", diz.

Além disso, o país tem como meta se tornar neutro na emissão de carbono até 2060.

Nesse cenário, as usinas nucleares, que usam urânio, são uma alternativa. A China tem hoje 38 usinas nucleares em operação e mais 19 em construção.

Segundo dados do NBS (National Bureau of Statistics) da China, a energia nuclear representa apenas 2% da matriz energética do país. Carvão detém 58%, petróleo 19%, gás natural 8% e outros 13% da matriz são representados por energia hidrelétrica e eólica.

Segundo Roos, um quilo do minério é 2,2 milhões de vezes mais eficaz na produção de energia do que um quilo de carvão.

"O urânio também é 740 mil vezes mais potente que o gás natural, maior matriz energética de países europeus e da Rússia. Os benefícios sociais e econômicos são muito maiores", afirma.

Mas o urânio é fonte segura de energia?

Para Roos, há um processo de quebra de mitos em relação ao minério, que ficou mal visto depois do acidente em Fukushima.

"O urânio é uma fonte segura de energia. Desde Fukushima, criou-se uma visão negativa dele, mas isso tem que ser desmistificado", afirma.

De acordo com o Our World In Data, para cada terawatt-hora produzido por carvão marrom (linhito), morrem 32,72 pessoas. Com carvão mineral, esse índice é de 24,62 pessoas; petróleo, 18,43 mortes; biomassa, 4,63 mortes; e gás natural, 2,82. Com 0,07 mortes por terawatt-hora, a energia nuclear fica à frente apenas da energia eólica (0,04), hídrica (0,02) e solar (0,02).

Os especialistas também alertam que o aumento de uso de urânio para produção energética não deve refletir, necessariamente, na produção de armas nucleares.

Isto porque o enriquecimento do urânio usado nas usinas como fonte de energia fica entre 0,7% e 3,5%. Já para a produção de bombas atômicas, é necessário um nível de enriquecimento de 90% do mineral.

Fundo canadense impulsiona alta

Segundo Eduardo Scheffer, sócio e especialista de produtos da B.Side Investimentos, o governo chinês está "comprometido" em investir mais no minério.

No encontro legislativo anual, o governo de Xi Jinping estabeleceu uma meta de aumento de 27% na produção de energia nuclear até 2025.

"Além disso, vários países europeus, assim como EUA e Argentina, já sinalizaram interesse em desenvolver novas usinas para geração de eletricidade", afirma.

Ele também cita a criação do fundo Sprott Physical Uranium Trust (UUT), do Canadá, em abril deste ano, que começou a comprar urânio físico. O fundo tem cotas negociadas na Bolsa de Toronto desde julho. A escassez de urânio tanto no mercado físico quanto no de derivativos impulsionou o preço da commodity, diz Scheffer.

Especialistas alertam, porém, que ainda há muito estoque do minério no mundo, o que pode segurar a disparada no preço. Por enquanto, o mercado está comprando urânio que está em estoque, e não minerando mais. A cotação, portanto, dependerá de quanto a procura por energia nuclear crescerá nos próximos anos.

Investir no minério no longo prazo pode ser vantajoso

Analistas são otimistas em relação ao mercado de urânio devido à busca por energia limpa para substituir as fontes de origem fósseis, que agravam as mudanças climáticas.

"A economia está muito mais robusta, e o cenário energético necessita muito de energias mais limpas. É uma tendência no mundo inteiro, e isso está impactando o preço do urânio", afirma Roos.

"As mudanças climáticas estão colocando em cheque a capacidade de as fontes renováveis tradicionais [hidráulica, solar e eólica] fornecerem energia de forma confiável. No Brasil, estamos passando pela maior crise hídrica dos últimos 90 anos, o que causa um aumento expressivo no custo de energia elétrica e no risco de racionamento de energia", afirma Scheffer.

Para o especialista, a energia nuclear ajuda a resolver esse gargalo.

"Além de não emitir gases do efeito estufa, ela é perene, ou seja, não depende de fatores climáticos. Com o aperfeiçoamento da tecnologia nuclear e novos protocolos de segurança, é inevitável o aumento considerável dessa matriz energética no futuro para fazer frente às necessidades energéticas globais", diz.

Brasil retomou produção do minério

O Brasil retomou a produção de urânio em 2020, com a inauguração de uma nova mina na Bahia, da IND (Indústrias Nucleares do Brasil).

A planta tem capacidade de produzir 260 toneladas de urânio concentrado por ano, mas a expectativa é chegar a 1.400 toneladas por ano até 2025.

De 2015 a 2020, o país importava urânio, mas a expectativa é que passe a exportar. Antes de 2015, outras duas minas foram exploradas até não existir mais o minério.

Na ocasião da inauguração da nova mina, em dezembro de 2020, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, anunciou que o Governo Federal tem como meta aumentar a participação da energia nuclear na matriz energética.

Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o urânio representa apenas 1,3% da matriz energética brasileira.

Como investir em urânio? Qual o risco?

Para brasileiros, existem poucas opções para investir em urânio. Não é possível fazer investimentos diretos no minério na Bolsa de Valores brasileira, mas dá para investir por meio de ETFs, fundos que acompanham algum índice.

A Vitreo, por exemplo, possui um fundo de investimentos dedicado ao minério, o Vitreo Urânio. O fundo tem ações de empresas globais vinculadas à extração e à exploração do urânio, como Cameco Corp, NAC Kazatomprom e NexGen Energy.

"O risco em investir em ações vinculadas ao urânio é extremamente alto. Por isso, recomendamos alocar apenas uma pequena parcela de seu patrimônio", afirma Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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