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Guedes não tem mais voz e agenda liberal perdeu espaço, dizem analistas

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Camila Mendonça

Do UOL, em São Paulo

22/10/2021 16h10

Depois do pedido de "licença para gastar R$ 30 bilhões fora do teto" e a inclusão na PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos precatórios de manobra que altera o cálculo do teto para dar ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido) quase R$ 84 bilhões em pleno ano eleitoral, o ministro da Economia, Paulo Guedes, perdeu mais quatro integrantes do primeiro escalão da sua equipe na última quinta (21).

Assim que a sessão da Bolsa abriu nesta sexta (22), o mercado reagiu negativamente a mais esta derrota de Guedes, e chegou a cair mais de 4%, com dólar batendo os R$ 5,75. Contudo, após coletiva dada pelo ministro, em que disse que "detesta furar o teto" e minimizou a saída de parte de seu time, o mercado recuou e as perdas foram menores. Ao fim da sessão, a Bolsa fechou em baixa de 1,34% e o dólar, que seguia em forte alta, fechou em queda de 0,71%.

O ministro também reforçou que seguirá trabalhando "até o fim do governo". Para economistas de mercado ouvidos pelo UOL, contudo, não há muito que o ministro possa fazer. Eles afirmam que, com tantas derrotas seguidas, Guedes perdeu a voz e a agenda liberal não tem mais espaço no governo. Veja abaixo o que eles disseram.

Decepção pauta investidores, diz economista

A frustração em relação ao papel de Guedes não é de hoje, segundo analistas. Contudo, vem se intensificando nos últimos dias.

A fala do ministro pedindo "licença para gastar R$ 30 bilhões fora do teto" já havia feito a Bolsa desabar 2,75% na quinta (21) e o dólar disparar 1,92%, para R$ 5,67. A manobra no cálculo do teto e a saída de secretários do primeiro escalão do ministério só foram a cereja do bolo.

"O mercado está decepcionado", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

Segundo a economista, essa visão foi evoluindo ao longo do tempo. Antes da eleição, Guedes se posicionou como fiador de Bolsonaro, como defensor da manutenção do teto de gastos, que é o grande sinalizador para o investidor do comprometimento do governo com a redução do nível do endividamento do país.

Mas essa visão mudou após o primeiro ano de governo, diz a especialista.

"Começaram a surgir dúvidas em relação às contas públicas e ao cumprimento do teto de gastos. A partir do momento que, seja por uma questão política ou por um esgotamento pessoal, ele afrouxa o seu discurso e faz uma alteração no tom de defesa do teto, a leitura do mercado é de que ele pode abrir mão da condução das contas públicas como ele vinha defendendo", afirma.

Guedes não tem mais voz

Piter Carvalho, economista-chefe da Valor Investimentos, acredita que Guedes não tem mais a confiança de parte do mercado, diante dos últimos dias, e que dificilmente conseguirá seguir com qualquer agenda liberal.

"Não traz mais confiança ao mercado. Duas âncoras caíram: o teto de gastos e também o compromisso de uma economia liberal. Agora a gente sabe que o governo está nas mãos do centrão e das demandas populistas visando reeleição. Esperava-se desse governo um projeto liberal, mas acabou virando um governo intervencionista e expansionista, com um teor forte de populismo", diz.

Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, afirma que Guedes, agora, está de escanteio, com pouco poder de fala e de ação.

"Ele não está nem conseguindo sustentar os secretários do seu ministério. Mercado perdeu a confiança com o fiscal e com o Guedes, não com a pessoa dele, mas com a capacidade dele de reverter essa situação. Há uma perda na força que ele tem no governo. A tendência é de que a fala dele vá perdendo mais força", afirma.

É o fim da agenda liberal do governo, afirmam especialistas

Carvalho vai mais longe. Para ele, Guedes é "apenas mais um bolsonarista no governo".

"Apesar de todo o rebuliço, pelo visto ele deve ficar até o fim do mandato. Mas há um problema: ele já não fica como um ministro da Economia, que era visto como liberal. Hoje ele é visto mais como um bolsonarista no governo. O mercado já não espera dele medidas liberais, medidas que foram prometidas na campanha", afirma.

Para Beyruti, diante do ano eleitoral, Bolsonaro abandonou de vez a agenda liberal.

"Ele decidiu abandonar a agenda liberal, tirando praticamente toda a força que o Guedes tinha, e focar na reeleição. Isso está afetando fortemente os ativos de risco no Brasil", afirma.

Felipe Berenguer, analista político da casa de análises Levante Ideias de Investimento, também não vê mais espaço para uma agenda liberal na economia.

"Imagino que o Guedes esteja no limite. Não tem muito espaço para um liberal hoje no governo, não tem espaço para promover uma agenda liberal. Acredito que pode ter sido o fim da agenda liberal. O conjunto da obra é decepcionante para o mercado e não acho que seja algo reversível", afirma.

Apesar disso, o especialista não acredita que a descrença em Guedes seja uma unanimidade no mercado.

"Não dá para colocar tudo isso na conta do Guedes. Não vejo o Guedes sendo conivente com uma política irresponsável, do ponto de vista fiscal, embora sua permanência no ministério dê ares de conivência, sim, à solução [manobra do teto]. Ele foi voto vencido. Não acho que ele teve uma postura de incentivar essa solução. Acredito que ele e a equipe econômica tentaram outras coisas", afirma.

Papel de conter danos

Para Berenguer, Guedes ainda tem papel de conter danos.

"Entendo que sua permanência está mais ligada à noção de minimizar os danos — se é que isso ainda é possível — sobre as expectativas do quadro fiscal e crescimento econômico de 2022. O foco do governo está completamente voltado para a reeleição do presidente, mas pode haver alguma agenda micro terminando de tramitar no Congresso neste fim de ano. Vale dizer, porém, que essa não é a prioridade de deputados e senadores", diz.

Analistas ouvidos pelo UOL antes da manobra do teto ser inserida na PEC dos precatórios já reforçavam a ideia de que Paulo Guedes estava enfraquecido, mas que ainda poderia evitar danos maiores nas contas públicas.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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