ipca
-0,09 Ago.2018
selic
6,5 19.Set.2018
Topo

Quem são os grevistas: pró-militar, pago pelo patrão ou com medo de pedrada

Bruno Freitas/UOL
Imagem: Bruno Freitas/UOL

Do UOL, em Biguaçu (SC), Curitiba (PR), Maceió (AL), São Paulo e Rio

29/05/2018 18h32

Caminhoneiros que fazem protestos e bloqueios mesmo após o acordo com o governo têm razões diversas para se manter no movimento. Em conversas com alguns dos que estão parados em diferentes pontos do país, o UOL ouviu diversos motivos para explicar a persistência. Alguns dos principais são:

- Querem intervenção militar (mas há quem discorde)

- Defendem a saída do presidente Michel Temer

- Estão sendo pagos pela empresa para ficar lá

- Pedem diesel tabelado em R$ 2,50 o litro

- Não se sentem representados pelos sindicatos que fecharam o acordo

- Têm medo de sofrer violência se furarem a greve

Leia também:

A maioria dos motoristas não quis se identificar, e muitos se recusaram a conversar com a reportagem.

Um motorista que estava na rodovia Anchieta (que liga São Paulo a Santos) nesta terça-feira (29) pediu a saída de Temer ou diesel a R$ 2,50. "Só saímos daqui em duas hipóteses: diesel a R$ 2,50 ou a renúncia do Temer."

Marina Lang/UOL
Claumar Mantuani (sentado, à dir.), no pátio do estacionamento da refinaria de Duque de Caxias (RJ), defendeu a intervenção militar Imagem: Marina Lang/UOL

O caminhoneiro Claumar Mantuani, parado no pátio do estacionamento da refinaria de Duque de Caxias (RJ), defendeu a intervenção militar. "É a única alternativa de tirar o Temer. Se não, como ele sai? Renunciando? Ele não vai renunciar."

No entanto, seu colega Flausino Messias Pereira discordou. "Não sabemos o que viria de uma intervenção militar, o que a história nos mostra não é muito bom. Não há uma opinião geral sobre isso entre nós [os caminhoneiros]."

Uma intervenção militar, como pedem alguns manifestantes, é contra a Constituição e seria considerado golpe, segundo especialistas.

Mantuani também disse temer violência nas estradas se abandonar o protesto. "Se sairmos, corremos riscos de sermos apedrejados ou saqueados."

No Paraná, um motorista empregado que também não se identificou disse que a empresa está bancando sua adesão. “Estou aguardando o aval do patrão para voltar a rodar. Estou aqui tranquilo, com comida, banho e vou receber no fim do mês”, disse. Ele está parado perto da refinaria Getúlio Vargas, em Araucária (PR). As transportadoras têm negado apoio à greve

Veja abaixo, em detalhes, algumas ideias dos caminhoneiros ainda parados:

'Tenho comida, banho e vou receber no fim do mês', diz empregado

Na refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), motoristas empregados dizem que estão sendo bancados pelas empresas transportadoras.

Eles dão três motivos para permanecer no local: (1) orientação da empresa com o propósito de fortalecer o protesto; (2) medo de ser parado na estrada em um lugar sem estrutura; (3) espera por carga para o caminhão para não rodar vazio, o que geraria ainda mais custos.

“Estou aguardando o aval do patrão para voltar a rodar. Estou aqui tranquilo, com comida, banho e vou receber no fim do mês”, afirmou um caminhoneiro que não quis se identificar.

Outro caminhoneiro disse que conhece gente que está vendendo os caminhões por causa das dificuldades. "Tenho um primo que tinha três caminhões. Devido aos custos do transporte, já vendeu dois deles. Ou seja, o protesto é legítimo, por mais que hoje eu esteja empregado.”

Na Repar, apesar da concentração de caminhoneiros, não há o impedimento da saída de caminhões. O local tem pelo menos três perfis de manifestantes: motoristas de aplicativos; motoboys e caminhoneiros.

Os motoristas autônomos, que estavam concentrados em um posto de gasolina nas rodovias que cortam Curitiba, reclamam que a baixa no diesel oferecida pelo governo é menor do que o aumento dos últimos meses.

Vinícius Boreki/UOL
Paulo Teixeira é um dos manifestantes no Paraná Imagem: Vinícius Boreki/UOL

“Além disso, nada garante que o preço não volte a subir após os dois meses e com a situação se normalizando”, afirmou Paulo Teixeira, um dos manifestantes, que está parado desde o último dia 21.

Medo de serem apedrejados e defesa de intervenção

Parados no pátio do estacionamento da Reduc (Refinaria de Duque de Caxias, RJ) desde segunda-feira da semana passada, um grupo de dez caminhoneiros autônomos afirmou ser impossível sair do local.

Eles não bloqueiam a entrada e a saída dos caminhões da refinaria, que estão saindo sob escolta das Forças Armadas. Alegam, no entanto, que têm receio de sair enquanto as estradas não estiverem totalmente liberadas.

"Há muitos bloqueios pela estrada em Seropédica, Barra Mansa, na estrada para São Paulo", afirmou o caminhoneiro Claumar  Mantuani. "Se sairmos, corremos riscos de sermos apedrejados ou saqueados. Não pelos caminhoneiros, mas pela população, que está do nosso lado, mas está revoltada."

Vários deles dizem que a saída seria tirar Temer da presidência. "É a principal reivindicação por agora. De todos", afirmou Flausino Messias Pereira.

Mantuani afirmou que a intervenção seria uma solução para tirar Temer da presidência. "É a única alternativa. Se não, como ele sai? Renunciando? Ele não vai renunciar."

No entanto, Pereira discordou. "Não sabemos o que viria de uma intervenção militar, o que a história nos mostra não é muito bom. Não há uma opinião geral sobre isso entre nós [os caminhoneiros]."

"Interesse patriótico, não só da categoria"

De acordo com ele, os caminhoneiros independentes ficam com aproximadamente 20% dos valores contratados no frete quando transportam mercadorias da capital para o Porto de Paranaguá – a cerca de cem quilômetros.

“O valor médio pago é de R$ 800. Gastamos cerca de cem litros, o equivalente a R$ 360, mais R$ 163 de pedágio e os gastos com manutenção e alimentação. Ou seja, sobram aproximadamente R$ 150 para o caminhoneiro”, declarou. Segundo ele, o acordo feito com o governo não vai resolver a situação, por isso “não temos bandeira de qualquer sindicato ou partido político”.

Apesar da afirmação, Teixeira disse que a luta também se tornou política, com o propósito de derrubar o governo de Michel Temer. “Não se trata só de interesse político, mas de algo patriótico. Defendemos a intervenção militar para que os benefícios dos políticos sejam cortados e para arrumar a casa”, afirmou.

'Se aparecer alguém do sindicato, a gente bota pra correr'

Entre caminhoneiros parados na altura do km 23 da Anchieta, em frente à fábrica da Volkswagen, havia rejeição aos líderes que fizeram acordo com o governo. 

Bruno Freitas/UOL
Caminhoneiros parados na altura do km 23 da rodovia Anchieta, em frente à Volkswagen Imagem: Bruno Freitas/UOL

“Se aparecer alguém de sindicato aqui a gente bota para correr”, disse um dos caminhoneiros, que pediu para não ser identificado.

"Só saímos daqui em duas hipóteses: diesel a R$ 2,50 ou a renúncia do Temer. Se ele sair, a gente volta ao trabalho mesmo com diesel a R$ 6”, afirmou outro caminhoneiro no local.

A população local tem ajudado com doações de água, comida e roupas. As notícias sobre a greve no resto do país e negociação em Brasília chegam principalmente por WhatsApp.

No começo da tarde desta terça-feira (29), um grupo de policiais militares chegou ao local oferecendo escolta a São Paulo e Santos para quem quisesse deixar a paralisação, mas poucos caminhoneiros aceitaram deixar o ponto.

A concentração no local é espontânea, dizem eles. A maioria são autônomos da região e se conhecem graças a uma rede de oferta de fretes pelo WhatsApp.

Em Alagoas, querem diesel a R$ 2,80

Em Alagoas, o maior ponto de mobilização de caminhoneiros na tarde desta terça-feira (29) era a BR-101, em Messias (na Grande Maceió), onde cerca de 400 veículos estão parados há oito dias.

Todos os caminhoneiros ouvidos no local falaram que não se sentem representados pelas entidades que negociam em Brasília com o governo e apoiam a intervenção militar.

Eles querem que o governo garanta o preço de R$ 2,80 nas bombas por 12 meses --o que daria uma queda de R$ 1 do preço médio atual. No local, apenas caminhões com carga viva e insumos de saúde estão passando. Os demais são "confiscados."

Carlos Madeiro/UOL
Gonçalo da Silva, 65, está desde a terça-feira (22) parado na BR-101, em Messias (AL), com carga de polietileno no caminhão Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Gonçalo da Silva, 65, está desde a terça-feira da semana passada. Saiu do Recife (PE) com destino a Salvador (BA), transportando carga de polietileno. Acabou parado pelo protesto, onde permanecia até esta terça-feira (29).

"Não tinha condições, tava aumentando todo dia. O meu frete foi contratado por R$ 1.800, só até aqui gastei R$ 1.000 com óleo e ainda faltam 200 quilômetros. Não fico nem com R$ 700 no fim para pagar comida", declarou.

João Araújo, 38, também é autônomo e disse que o que foi oferecido pelo governo é insuficiente. "Que adianta baixar 60 dias e depois subir? A gente não vai sair até chegar a R$ 2,80", disse o autônomo, que está há oito dias no acostamento da BR-101, esperando o fim do protesto para entregar uma mudança em Aracaju (SE).

Cristiano Silva, 41, veio de Inhapi, no sertão alagoano, para buscar água mineral. Como parou, a cidade não estaria mais com galões de água à venda. "Ele [Temer] diz é que esses R$ 0,46 cortados foram muito, mas ele pode dar mais", disse.

Bolsonaristas são vistos como "exaltados" em SC

O movimento de caminhoneiros em Santa Catarina é heterogêneo. Teria sido combinado com as lideranças locais que nenhuma campanha seria feita na manifestação.

Porém, o grupo que apoia o pré-candidato Jair Bolsonaro e a intervenção militar tem se mostrado rebelde. No local da manifestação, são chamados pelos outros caminhoneiros de "exaltados". Apesar da característica heterogênea, os manifestantes apoiam a saída do presidente Michel Temer.

Juliano Ramos, 38 anos, é caminhoneiro há 15 anos. Seu pai atua há 40 anos. Os irmãos e tios têm a mesma profissão. Ele disse que o trabalho está cada vez mais difícil. "É muito complicado. Minha última viagem foi do Rio Grande do Sul até São Paulo, ganhei R$ 500, não tinha frete garantido de volta, e estourei um pneu na estrada, são todas esburacadas. Gastei R$ 2.000".

Ele também reclamou do preço dos pedágios e do seguro para transportar cargas, além do preço do diesel.

(Reportagem de Aline Torres, Bruno Freitas, Carlos Madeiro, Marina Lang e Vinícius Boreki)

Mais Economia