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Veja os sete erros do governo na negociação com os caminhoneiros

Téo Takar

Do UOL, em São Paulo

O governo cometeu diversos erros estratégicos ao lidar com a greve dos caminhoneiros, que culminaram em uma das maiores crises de abastecimento já enfrentadas pelo país.

Especialistas apontam abaixo por que a manifestação se arrasta há mais de uma semana e, mesmo após a redução do preço do diesel e outras concessões feitas, os caminhoneiros permanecem descontentes.

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1º erro) Agência de inteligência ignorou força dos caminhoneiros

O governo foi alertado pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) de que uma grande paralisação dos caminhoneiros seria realizada a partir do dia 21 de maio caso nenhuma medida fosse tomada para compensar as perdas no frete decorrentes da alta do diesel, mas o Palácio do Planalto ignorou o ofício enviado pela entidade.

"Houve uma falha cristalina da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em não monitorar os bastidores do movimento dos caminhoneiros e de não prever que o protesto poderia ganhar tanta adesão, com consequências importantes para o país", diz o professor Jaci Leite, coordenador do curso de Negociação da FGV Educação Executiva.

Para ele, era difícil imaginar, na segunda-feira passada (21), que o movimento dos caminhoneiros poderia ganhar a dimensão que alcançou. "Faltou um trabalho prévio de inteligência. O tamanho do problema só ficou evidente a partir da noite de quarta-feira (23)."

2º erro) Reação do governo à crise foi lenta

A greve dos caminhoneiros já estava no terceiro dia quando o governo se deu conta da crise de abastecimento que ameaçava o país. "Quando o governo decidiu entrar na negociação, já chegou atrasado. O problema já estava bem mais à frente, a greve já tinha alcançado dimensão nacional, o que dificultou uma reação", afirma o professor Carlos Melo, cientista político do Insper.

3º erro) Governo "amoleceu" primeiro, para depois "endurecer"

Além de demorar para reagir à crise no transporte rodoviário, o governo não foi enérgico nas medidas inicialmente adotadas. "Em que lugar sério do mundo um governo deixa as estradas serem fechadas dessa forma? Essa obstrução das rodovias, sem que o governo fizesse nada, deu ainda mais força ao movimento dos caminhoneiros", diz Jaci Leite, da FGV.

"Houve um erro claro quando o governo decidiu ceder às pressões dos caminhoneiros e sentar à mesa para negociar, em vez de exigir primeiro a liberação das rodovias. Nessa posição privilegiada, os manifestantes logo perceberam que, quanto mais pressionassem, mais o governo cederia", afirma Carlos Melo, do Insper.

"Quando o governo resolveu endurecer, agiu de forma atabalhoada. Acionou primeiro as Forças Armadas, em vez de consultar os governadores para acionar as polícias estaduais. Você não pode lançar mão das Forças Armadas dessa forma. Não pode ser uma bravata. Seu adversário precisa realmente acreditar que você vai agir para decidir recuar."

4º erro) Negociadores não representavam maioria dos caminhoneiros

O governo saiu da reunião com os representantes dos caminhoneiros, na quinta-feira (24), acreditando que tinha chegado a um acordo para encerrar a greve. A expectativa era de que a crise nos transportes seria solucionada dali a poucas horas.

O problema é que logo surgiram declarações de entidades de caminhoneiros na imprensa de que o grupo de negociadores que esteve no Planalto, na verdade, não representava os interesses da maior parte da classe.

"Foi um erro infantil. O governo não se certificou de que aquelas pessoas com quem estava negociando realmente falavam em nome dos caminhoneiros. É claro que você não pode chamar um milhão de caminhoneiros para negociar. Mas você precisa ter certeza de que as pessoas que estão ali na sua frente representam a maioria", afirma o professor Jaci Leite.

Leite vai além e levanta a hipótese de que a reunião de quinta-feira tenha sido intencionalmente forjada, para causar mal-estar no governo e irritar ainda mais os caminhoneiros. "Houve um grupo que, deliberadamente, não participou da reunião. Será que essa falsa representatividade não foi intencional?"

O professor afirma que são grandes as suspeitas de que houve uma ação coordenada, não por parte dos caminhoneiros, mas das empresas de transporte para paralisar o setor e pressionar o governo, medida que configura um locaute.

"Basta olhar uma das pautas aprovadas na reunião. O governo concordou em não reonerar (aumentar a carga tributária) sobre a folha de pagamentos do setor de transporte. Isso passa a quilômetros de distância dos interesses dos caminhoneiros. É uma pauta que atende estritamente aos interesses das empresas."

5º erro) Governo não esperou liberação das estradas

Além de não saber com quem estava negociando, outro erro grave do governo foi assumir compromissos antes mesmo que os caminhoneiros liberassem o tráfego e restabelecessem o abastecimento de combustível e mercadorias.

"As medidas foram publicadas no Diário Oficial, mas a greve continuou. Ou seja, o governo assumiu compromisso em troca de nada. Em qualquer negociação, precisa existir uma contrapartida. O efeito prático desse erro foi fortalecer ainda mais os grevistas", declarou Jaci Leite

6º erro) Medidas geraram insatisfação em outros grupos

A decisão de reduzir o preço do diesel para os caminhoneiros irritou outras categorias profissionais da área de transporte, como donos de vans escolares e motoboys.

"O erro do governo não acabou com os caminhoneiros. Estamos assistindo a outras demonstrações de força de grupos organizados. Esse problema vai continuar perseguindo o governo", diz o professor da FGV.

7º erro) Preocupação de "blindar" Petrobras não surtiu efeito

Logo que a greve dos caminhoneiros estourou, uma das maiores preocupações do governo era justamente não adotar qualquer medida que pudesse ser interpretada pelo mercado financeiro como o retorno da interferência política na gestão da estatal.

A sequência de reuniões entre o Planalto e o presidente da companhia, Pedro Parente, foi acompanhada de informações desencontradas. Primeiro a estatal negou que mudaria sua política de preços dos combustíveis. Depois acabou cedendo e concedeu um desconto de 10% sobre o preço do óleo diesel, com validade de 15 dias.

Como os caminhoneiros não se mostraram satisfeitos com a medida, o governo decidiu prorrogar o desconto por até 30 dias, criando um mecanismo de compensação para evitar perdas para a Petrobras.

Ao longo do fim de semana, a proposta sofreu novas modificações. O desconto foi ampliado para R$ 0,46, por 60 dias, mediante redução de impostos pelo governo.

Desde o início da crise, no dia 21, até ontem (28), as ações preferenciais (PN) e ordinárias (ON) da Petrobras acumularam perdas da ordem de 34%.

"O governo tentou proteger a Petrobras. Não deu certo. A empresa perdeu mais de R$ 126 bilhões em valor de mercado. O governo tentou proteger a população, mas ela acabou desabastecida. O governo tentou proteger o caminhoneiro, mas eles continuam insatisfeitos. E o governo tentou proteger a si próprio, mas saiu ainda mais desgastado dessa crise", afirma Carlos Melo, do Insper.

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