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40 dias de Guedes tiveram crise com Onyx, Previdência e pouco sono

Antonio Temóteo

Do UOL, em Brasília

13/02/2019 04h00Atualizada em 13/02/2019 12h46

Resumo da notícia

  • Ministro reuniu-se com dezenas de empresários, políticos e ministros, buscando apoio para suas reformas
  • Definiu duas prioridades: reforma da Previdência e o projeto da cessão onerosa (valor pago pela Petrobras para explorar petróleo)
  • Enfrentou crise com ministro Onyx por causa de anúncio atrapalhado de aumento de impostos
  • Há atritos sobre inclusão de militares na reforma da Previdência
  • Em busca de apoio do mercado, tem se encontrado com banqueiros

Nos primeiros 40 dias de governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, enfrentou duas crises, reuniu-se com dezenas de empresários, políticos e ministros e trabalhou até de madrugada. Falou muito com o Congresso para tentar garantir votos para mudanças que quer fazer. Também definiu suas duas prioridades. Reforma da Previdência e o projeto da cessão onerosa (valor pago pela Petrobras à União para explorar petróleo).

O ministro da Economia, dizem interlocutores, avalia que a Previdência e a cessão onerosa serão uma forte sinalização para o mercado de que o governo está preocupado com as contas públicas no longo prazo e em reduzir o déficit público no curto prazo. 

"Guedes acorda às 4h30 e responde emails até 1h30. Ele tem uma rotina de trabalho exaustiva, mas está muito animado com a possibilidade de mudar o país e recolocar a economia nos trilhos do crescimento. A outra prioridade é vender estatais e pagar a dívida pública", disse um auxiliar. 

Crise e brigas com ministro da Casa Civil

Após tomar posse em 2 de janeiro, discursar para uma plateia de banqueiros, políticos e empresários, defender a reforma da Previdência e mais concorrência no sistema bancário, Guedes passou pela primeira crise no dia 4.

Naquela manhã, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um aumento de impostos, que foi desmentido no fim do dia. Tamanho foi o desgaste dentro do governo que Guedes estava no Rio de Janeiro, cancelou uma reunião com o presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e não deu nenhuma declaração sobre o tema. Esse episódio gerou um atrito com o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Onyx era contra a alta de impostos como o primeiro ato do governo para compensar uma perda de receita. Entretanto, o chefe da Casa Civil e o ministro da Economia não haviam definido a estratégia de comunicação sobre ao assunto. 

Durante a campanha, os dois já haviam se estranhado quando Guedes desautorizou Onyx a falar sobre a reforma da Previdência. Apesar dos atritos, além de se encontrarem nas quatro reuniões do conselho de governo que já ocorreram até agora, Onyx e Guedes já tiveram cinco reuniões para tratar dos mais diversos temas. 

Além de Bolsonaro, o chefe da Casa Civil é quem mais recebeu atenção do ministro da Economia até o momento. A mais recente reunião ocorreu na última segunda-feira para uma avaliação sobre a necessidade de cortes do Orçamento e sobre a reforma da Previdência.

Tenta conquistar votos no Congresso

Nas sete últimas semanas de trabalho, Guedes se reuniu com seis governadores, com os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP), com o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO), e o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP).

Os temas prioritários em todas as reuniões eram reforma da Previdência e cessão onerosa. Um dos principais interlocutores de Guedes no Congresso é Maia. Ele e o pai do deputado, o ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia, são amigos há mais de 30 anos.

O empenho do ministro da Economia em busca de votos para a reforma da Previdência o levou a abrir um canal de diálogo com o senador Renan Calheiros (MDB-AL). Na época, Renan era candidato à presidência do Senado e estava em busca de apoio do governo. 

"Guedes tem se esforçado politicamente para atender os principais líderes partidários e conseguir votos de todos os parlamentares, independentemente do partido. Esse trabalho tem sido feito diariamente", disse um assessor do ministro.

Atrito por aposentadoria de militar

Guedes está convencido de que precisará do apoio de todo o governo e do Congresso para mudar as regras para a concessão de aposentadorias. Esse tema foi motivo de outra crise porque diversas lideranças militares se manifestaram contra a reforma.

Tamanho era o atrito, que, até a divulgação da MP de combate a fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), os técnicos da equipe econômica não trataram de propostas para mudar o regime de aposentadoria dos militares. 

"Tivemos muitos atritos. Até agora isso não está resolvido. Assim como a idade mínima é um problema para o presidente resolver, a inclusão dos militares ainda não está 100% definida. Não sabemos como será esse processo", disse um técnico que pediu anonimato. 

R$ 130 bilhões com petróleo

A cessão onerosa do petróleo não tem sido debatida publicamente por ele, mas Guedes tem dedicado parte significativa do seu tempo para resolver a questão. Pelo projeto de lei no Senado, o governo poderia viabilizar o leilão do petróleo excedente da área da cessão onerosa (o governo poderá vender o volume de petróleo que ultrapasse os 5 bilhões de barris).

A Petrobras tem, pelo contrato original, direito de explorar até 5 bilhões de barris de óleo na área do pré-sal. Mas a região tem um volume maior. Com a possível venda do excedente para outras petroleiras, a expectativa é de que a União arrecade até R$ 130 bilhões.

Visita a Davos, americanos e chineses

Além de participar ativamente das discussões para recuperar a economia, Guedes tem recebido autoridades de outros países e foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Antes de participar do evento internacional, teve encontros com embaixadores da China e dos Estados Unidos. Reforçou nos encontros que o governo está interessado em fazer negócios com os dois países, sem nenhum viés ideológico. 

O ministro da Economia também participou da recepção ao presidente da Argentina, Maurício Macri, a primeira visita de um chefe de estado ao Brasil no novo governo. Ele teve reuniões com ministros e empresários do país vizinho. 

Conversas com bancos e corretoras

Em busca do apoio do mercado para aprovar as reformas e atrair investimentos para o Brasil, Guedes também tem reservado espaço na agenda para receber banqueiros. No dia da cerimônia de posse, em 2 de janeiro, atendeu o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e para o presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol. 

Os dois não estavam na agenda divulgada no dia anterior. Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e estrategista-chefe da Rio Bravo Investimentos também esteve com o ministro da Economia. 

Em Davos, Guedes participou de um evento exclusivo do Itaú Unibanco. Também recebeu executivos do banco UBS e do Bank of America. Representantes de IBM, Visa, Citibank e do banco BBVA também estiveram com o ministro nesses 40 primeiros dias de governo.

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