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Classe social influencia ascensão em empresas, mas percepção é de igualdade

Pesquisa confirma que, nos cargos de chefia das empresas brasileiras, são mais comuns homens brancos de família de alta renda - Ruthson Zimmerman/Unsplash
Pesquisa confirma que, nos cargos de chefia das empresas brasileiras, são mais comuns homens brancos de família de alta renda Imagem: Ruthson Zimmerman/Unsplash

Diogo Antônio Rodriguez

Do UOL, em São Paulo

06/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Segundo pesquisa, 24% dos brasileiros que nasceram em família de alta renda estão em cargos de liderança; os de origem de baixa renda são apenas 8%
  • Mais homens chegam aos cargos de chefia do que mulheres: 20% a 13%, respectivamente. E brancos são a maioria: 21%
  • Apesar disso, pesquisa também detecta que 94% dos trabalhadores consideram que sua empresa trata todos os funcionários de maneira igualitária
  • Para especialista em RH, dados ainda são preocupantes, e empresas precisam fomentar não só diversidade, mas também inclusão

Diversidade nas empresas, especialmente em cargos de liderança, se tornou uma questão cada vez mais urgente no mercado brasileiro. Agora, uma pesquisa coordenada pela Fundação Instituto de Administração (FIA) ajuda a delinear mais claramente onde está o problema: além dos recortes de raça e gênero, a ascensão na carreira também está ligada à classe social.

Segundo a pesquisa FIA Employee Experience 2020, respondida por cerca de 150 mil trabalhadores em mais de 300 empresas brasileiras, 24% dos funcionários que nasceram em famílias de alta renda ocupam cargos de diretoria ou gerência. Quem vem de uma família de baixa renda ainda tem dificuldades para "chegar lá": apenas 5% deles estão em cargos de alta liderança.

"Os dados demonstram que vários fatores influenciam as chances de crescimento profissional nas organizações, mas principalmente a origem social", afirma Daniel Andere de Mello, professor de pós-graduação em gestão de pessoas, pesquisador, consultor e coordenador técnico do estudo.

Apesar de tudo, percepção de igualdade

Daniel Andere de Mello - Simon Plestenjak/Divulgação - Simon Plestenjak/Divulgação
Mello: "Índice que analisa a igualdade de tratamento é alto"
Imagem: Simon Plestenjak/Divulgação
A pesquisa, que servirá de base para o Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar, a ser entregue pela FIA e pelo UOL no próximo dia 25, também comprovou a discrepância entre gêneros. Os homens estão em vantagem: um quinto deles (20%) já alcançou cargos de liderança, contra 13% das mulheres.

Mello reforça, porém, que a pesquisa traz um dado positivo. "O índice que analisa a igualdade de tratamento dos diferentes públicos internos é alto", explica. Cerca de 94% dos participantes afirmaram que as pessoas de qualquer idade, raça e orientação sexual são tratadas com a mesma justiça e respeito na empresa em que trabalham.

Mesmo quando segmentado por minorias, esse índice ainda é elevado. Entre as pessoas com deficiências (PCD), por exemplo, a percepção de igualdade é de 91%; entre homossexuais, 90,4%; e entre bissexuais, 89,6%.

Empresas lutam para reverter o problema

Magazine Luiza - Divulgação - Divulgação
Magazine Luiza lançou programa de trainees exclusivo para negros
Imagem: Divulgação
Cerca de 92% dos negros também responderam que sua empresa trata a todos de maneira igualitária. Mas, para Mello, a etnia também têm um impacto significativo na progressão de carreira. Entre os respondentes que se declaram brancos, 21% ocupam cargos de chefia. Entre os amarelos este percentual é de 20%, enquanto entre pardos e negros os percentuais são respectivamente de 12% e 9%. Entre os índios são 10%.

Tal segmentação tem impacto não apenas na hierarquia corporativa, mas também na distribuição de renda do Brasil. De acordo com dados do IBGE, o rendimento mensal dos brancos em 2019 foi, em média, 56,6% maior do que a da população negra.

Nos últimos meses, diversas empresas têm alavancado programas de recrutamento e promoção em que a origem social é um dos recortes mais analisados. Em setembro, a iniciativa do Magazine Luiza em realizar um programa de trainees exclusivamente voltado para negros causou polêmica, motivando uma ação civil que pedia seu cancelamento, e que foi rapidamente desconsiderada pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal.

A diferença entre diversidade e inclusão

Reunião de trabalho - StartupStockPhotos/Pixabay - StartupStockPhotos/Pixabay
"Organizações ainda estão pouco preparadas para a inclusão", afirma consultor de RH
Imagem: StartupStockPhotos/Pixabay
Para Rodolfo Araújo, vice-presidente para América Latina da consultoria de RH United Minds, mesmo os números da pesquisa que indicam uma percepção positiva de equidade precisam ser lidos com cautela. "O grande caldo das respostas vêm de grupos que ainda ainda fazem parte do padrão dominante", analisa.

Ele reforça que as empresas precisam se preocupar não só com diversidade (um quadro de funcionários mais fiel à representação demográfica brasileira), mas sim com o próximo passo: a inclusão (oportunidades e ajustes reais para que esses diferentes perfis possam prosperar).

"As organizações ainda estão pouco preparadas para incluir profissionais que não façam parte dos padrões privilegiados", resume. "Ainda há um longo caminho a ser percorrido na ascensão de pessoas com deficiência, com diversidade de etnia, de origem, de identidade de gênero e outros grupos", diz.

O Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da Fundação Instituto de Administração (FIA) que vai destacar as empresas brasileiras com os mais altos níveis de satisfação entre os seus colaboradores. Os vencedores serão definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience, que mede o ambiente de trabalho, a cultura organizacional, a atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e os vencedores do Prêmio devem ser anunciados em novembro.