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Pandemia faz RHs recorrerem a startups de "benefícios flexíveis"

Pacotes de startups permitem divisão ajustável nos gastos de benefícios como vale-refeição ou vale-alimentação - Fabio Alves/Unsplash
Pacotes de startups permitem divisão ajustável nos gastos de benefícios como vale-refeição ou vale-alimentação Imagem: Fabio Alves/Unsplash

Bruno Lazaretti

Do UOL, em São Paulo

27/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Startups oferecem pacotes de "benefícios flexíveis", em que o trabalhador define em quais serviços quer gastar sua cota mensal
  • Pandemia estimulou grandes empresas a buscar novos formatos de benefício, e startups no setor cresceram até 1000%
  • Crise na economia também popularizou novos benefícios ligados a auxílio-financeiro
  • Companhia que oferece novo tipo de benefício de saúde, focado em "primeiro atendimento", cresceu quatro vezes durante a pandemia

Com a suspensão do dia a dia de escritório imposta pela pandemia, os RHs de médias e grandes empresas se viram obrigadas a rever políticas de benefícios para os funcionários. Uma nova tendência se consolidou: os pacotes de "benefícios flexíveis", em que o funcionário seleciona quais necessita. Startups com esse tipo de serviço viram um crescimento na demanda.

"É ruim dizer que uma coisa [a pandemia] que afetou o mundo inteiro [negativamente] foi positivo para nós. Mas foi", admite Marcelo Ramos, chairman da Vee, cujo faturamente cresceu 1.000% em relação ao mesmo período de 2019. "A empresa vinha com um crescimento de 20% de clientes pequenos. Na pandemia, a gente explodiu."

O conceito é relativamente simples. O funcionário recebe um valor fixo e ele mesmo define como planeja gastá-lo, a partir de uma "carteira digital" com parceiros de diversos tipos de benefícios, como vale-refeição, mobilidade urbana, academia, etc. O RH determina a flexibilidade desses gastos - na opção máxima, o funcionário tem autonomia total para decidir como e quanto quer usar seus recursos.

A pandemia reconfigurou o mercado

Marcelo Ramos, fundador e chairman da Vee - Divulgação/Vee - Divulgação/Vee
Ramos, da Vee: crescimento de 1000% em 2020
Imagem: Divulgação/Vee
Quando Ramos fundou a companhia, em outubro de 2016, o modelo de negócio estava voltado para pequenas e médias empresas, que tinham dificuldade de oferecer benefícios a seus colaboradores por meio das maiores e mais tradicionais players do mercado, como Alelo, Ticket e Sodexo.

"Muitas vezes não é pela capacidade de atendimento dessas [grandes empresas], mas pela falta de conhecimento desse perfil de cliente. É um RH júnior ainda, é um dono que faz tudo, é um contador que também cuida dos benefícios", explica Ramos.

Ricardo Salem, CEO da Flash, que também atua no ramo, acredita que a pandemia também mudou o perfil dos usuários, funcionando como um "acelerador de transformações digitais". "Os hábitos de consumo das pessoas, e suas necessidade de benefícios, mudaram drasticamente", analisa. "Agora, os colaboradores vão trabalhar cada dia de um jeito. Não têm as mesmas necessidades, e continuarão não tendo porque o estilo de trabalho ficou mais dinâmico".

Nesse sentido, reunir essas múltiplas demandas em uma única carteira também é um atrativo para os RHs. "É também uma questão de gestão de agenda: o gestor de RH nem sempre tem tempo para ficar pensando como vai fazer para 20 funcionários terem acesso a academia, saúde mental, etc", pontua Ramos.

TV em 24 vezes, descontadas no holerite

Vinicius Horstmann, gerente financeiro da Ahfin - Divulgação/Ahfin - Divulgação/Ahfin
Horstmann, da Ahfin: 15 mil conveniados em três meses
Imagem: Divulgação/Ahfin
A estagnação da economia, também decorrente da crise sanitária, estimulou outra startup de benefícios: a fintech Ahfin, que oferece auxílio financeiro. Lançada há três meses, já conta com cerca de 30 clientes e mais de 15 mil conveniados - a meta para o ano que vem é chegar a 120 mil.

"A gente existe exatamente nessa nova visão de RH sobre benefícios diferenciados", diz o gerente financeiro Vinicius Horstmann. "O colaborador pode pegar um empréstimo consignado [com juros menor]. Então, ele vai se endividar menos e vai trabalhar com muito mais motivação". A companhia também oferece planos coletivos de previdência privada. "É mais um benefício que ajuda a empresa a reter os funcionários", acredita.

O filão em crescimento atraiu a atenção também da Creditas, que já atua há três anos no setor. Em setembro, ela lançou o Creditas@Work, que empacota para o RH todas as soluções financeiras da empresa, como crédito consignado e antecipação salarial, além de um cartão de benefícios flexíveis (alimentação, refeição, mobilidade, cultura, saúde e educação) e acesso a uma plataforma de compras de produtos (como aparelhos de televisão) com desconto direto na folha de pagamento.

"Na verdade, a gente foi juntando vários produtos que já estávamos desenvolvendo", diz Fabio Zveibil, VP de desenvolvimento de negócios. "Com certeza tem uma tendência natural dos RHs [de expandir a oferta de benefícios]. Mas a pandemia acelerou muita coisa. E ajudou a digitalizar muita coisa. Os benefícios entraram nessa realidade".

Consulta médica preventiva e virtual

Brian Bittencourt, CGO da Cuidas - Divulgação/Cuidas - Divulgação/Cuidas
Bittencourt, da Cuidas: em 2020, um salto de crescimento de quatro vezes
Imagem: Divulgação/Cuidas
As novas startups não costumam englobar plano de saúde. Mas outra player no modelo B2B se consolidou nos últimos meses: a Cuidas. "A gente começou mirando nas pequenas empresas, como uma alternativa ao plano de saúde", diz o CGO Brian Bittencourt. "Com o Covid-19, desenvolvemos o atendimento digital e começamos a nos posicionar também para as grandes". Resultado: 2020 deve fechar com um faturamento quatro vezes maior que o de 2019.

A Cuidas aposta no conceito de "primeiro atendimento": uma espécie de "médico da família", como existe em algumas unidades de saúde pública do SUS. O conveniado solicita a visita, e um médico e um enfermeiro atendem geralmente no mesmo dia. "Nos estudos que fizemos para a criação da empresa, esse médico de família tem uma resolutividade de 80% dos casos, mas a Cuidas têm conseguido entregar 94%", diz Bittencourt.

Um dos motivos para o crescimento foi o interesse de pequenas e médias empresas, que não conseguiam oferecer planos de saúde para seus colaboradores. Um pacote da Cuidas pode custar até 20% do valor de um plano tradicional. Já as grandes companhias costumam disponibilizar ambos. "Nessas companhias, a saúde é o segundo maior custo de RH", explica o executivo. "Nosso serviço reduz esse custo, porque a sinistralidade cai, então a renovação dos contratos com os planos de saúde não sofre um aumento enorme, como costuma acontecer".