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Empresas encontram soluções para superar o "abre e fecha" da pandemia

Empresas impactadas pelas restrições de circulação na pandemia, como restaurantes e academias, apostaram em ouvir seus colaboradores e integrá-los. O resultado foi maior engajamento e soluções para problemas a partir do diálogo. - Antonio Janeski/Unsplash
Empresas impactadas pelas restrições de circulação na pandemia, como restaurantes e academias, apostaram em ouvir seus colaboradores e integrá-los. O resultado foi maior engajamento e soluções para problemas a partir do diálogo. Imagem: Antonio Janeski/Unsplash

Felipe Floresti

Do UOL, em São Paulo

11/06/2021 04h00

"Era comum os funcionários acreditarem que a empresa está preparada para tudo". A psicóloga Lidia Santos, que lidera o departamento de Recursos Humanos da rede de restaurantes Le Jazz, lembra de um senso comum que deixou de existir com a chegada da pandemia de covid-19.

Antes da pandemia, a empresa contava com 215 colaboradores. No começo da crise sanitária, a rede assumiu o pagamento integral do plano de saúde de todos os funcionários. Outra medida para garantir maior segurança para os funcionários foi distribuir cestas básicas para aqueles cujo rendimento dependia, parcialmente, da taxa de serviço - inexistente com os restaurantes fechados.

Diante desse novo cenário, todos precisaram se adaptar, dos estagiários ao CEO. Quem podia, logo se encaixou na rotina do home office. Mas para fazer um restaurante funcionar, nem todos os funcionários podem ter esse privilégio. Os serviços de delivery ajudaram a minimizar os prejuízos, mas uma série de profissionais, como garçons e recepcionistas, se viram imersos em incerteza.

As demissões foram inevitáveis e, além disso, a partir do início de 2021, boa parte dos colaboradores decidiu retornar para seus estados de origem e buscou a empresa para um acordo de demissão. Atualmente, o Le Jazz conta com 168 funcionários - redução de 21,8% em relação ao início da pandemia.

"Primeiro, todo mundo em casa. De repente, volta. Depois, fecha de novo. Esse vaivém mexe muito com as pessoas e afeta a energia que cada um coloca no trabalho. Foi bem impactante emocionalmente", conta Santos, que viu crescer a busca por psicoterapia entre os 168 colaboradores do restaurante desde o início da crise sanitária.

"As pessoas ficaram muito tempo em casa. E quem trabalha em serviços interrompidos, não volta com o mesmo gás. O quadro preocupa por ser um momento em que boa parte das empresas está operando com número reduzido de pessoas", completa.

Le Jazz Brasserie - Lucas Terribili/Le Jazz Brasserie - Lucas Terribili/Le Jazz Brasserie
A rede de restaurantes Le Jazz viu seu quadro de funcionários diminuir 21,8% desde o início da pandemia.
Imagem: Lucas Terribili/Le Jazz Brasserie

Todos no mesmo barco

Encontrar formas de manter o engajamento dos colaboradores em meio a um cenário tão instável era fundamental. Sem fórmulas prontas para replicar, uma vez que a situação não tinha precedentes, Santos apostou na transparência. A gestora de RH colocou-se no papel de aprendiz e estimulou um ambiente de empatia, principalmente entre os cargos de liderança.

"Passamos a orientar os gestores para manter um contato mais humanizado com os funcionários. Perguntar 'como está se sentindo com a situação? Como está a família?', por exemplo, é um exercício simples, mas forte, de empatia. É um maneira de conectar as pessoas em relação a demandas e fragilidades do trabalhador e da empresa", detalha Santos. "Esse trabalho de conscientização e integração mútua foi importante para a retomada."

Com mais de um ano de pandemia, e ainda longe de vislumbrar uma volta completa à normalidade, Santos acredita que estimular a sensação de pertencimento junto à empresa é a única saída para manter os funcionários e o negócio operando. "Se não passarmos a mensagem de que a empresa está passando pela tempestade junto com o colaborador, vai ter mais funcionários abandonando o barco do que remando junto."

Para Lucas Freitas, consultor especialista em RH, o trabalho psicológico junto aos funcionários vem sendo o diferencial de negócios que estão lidando melhor com a pandemia. "As empresas estão investindo em saúde mental porque perceberam que é importante dar um respiro para os funcionários", afirma. "É preciso dar um pouco de leveza ao trabalho, para não ficar em um modelo que exige produtividade o tempo todo. É uma carga muito pesada."

Ao visitar empresas por todo o Brasil, Freitas observa que, com a saúde mental em dia, os funcionários ampliam o nível de engajamento no trabalho. "A tendência é que os colaboradores valorizem o emprego e que, diante de dificuldades, se dediquem mais, associando o sucesso da empresa ao seu próprio crescimento profissional", avalia.

Cia Athletica na pandemia - Mauricio Marconi/Cia Athletica - Mauricio Marconi/Cia Athletica
Com redução de 20,6% no rol de colaboradores, a Cia Athletica tem remanejado as aulas para garantir rendimentos - ainda que reduzidos - para todos os instrutores.
Imagem: Mauricio Marconi/Cia Athletica

Um diálogo de cada vez

A rede de academias Cia Athletica, outra empresa de um setor que sofreu com as restrições de circulação na pandemia, iniciou o período com 2.900 colaboradores. O impacto da covid-19 para o negócio foi grande, com pelo menos três períodos em que as academias ficaram completamente fechadas.

Inicialmente, houve um acordo de suspensão temporária do contrato de trabalho dos colaboradores diretos. Nessa fase, o governo assumiu 70% dos salários enquanto a empresa bancava 30% com base na média de rendimentos nos três meses anteriores à pandemia.

Entre os terceirizados - fisioterapeutas, nutricionistas, instrutores de pilates, personal trainers e outros prestadores de serviço nas unidades - houve adequações que incluíram o fechamento de restaurantes e lanchonetes em unidades menos frequentadas. Além disso, muitos instrutores entraram com pedido de acordo de demissão, pois se adaptaram à pandemia oferecendo aulas particulares online, em parques ou em condomínios.

Atualmente, a empresa conta com 2.300 colaboradores diretos e indiretos - redução de 20,6% desde o início da pandemia. Com as academias abertas - embora com restrições de funcionamento - um dos principais esforços têm sido remanejar as aulas de maneira equilibrada para garantir um rendimento, embora reduzido, para todos.

Para superar tantas perdas e percalços, a empresa aprendeu sobre a necessidade de aproximar as pessoas. "As aflições, angústias e medos têm seu lado útil, que é nos unir", afirma Cinthia Guimarães, diretora de RH. "Se o indivíduo olha para o horizonte, vê uma tempestade se aproximando, e não sabe como vai fazer para sobreviver, vai procurar uma rede de apoio. É do ser humano isso, e vemos que está acontecendo."

Como primeira iniciativa diante da pandemia, Guimarães estabeleceu um atendimento psicológico para os funcionários. Com o tempo, porém, percebeu que precisava oferecer mais do que isso. O que mais afligia as pessoas era a falta de perspectiva de futuro, algo que a empresa não tinha condições de entregar diante de um cenário tão incerto. "Para ganhar a equipe, é um diálogo por vez com cada um. Você não chega com as respostas prontas, até porque não as tem. Então, a gente inverteu a situação e fez o colaborador participar das soluções para os problemas", relata.

Foi assim que surgiu o programa "Troque suas Lentes". Em reuniões virtuais, com participação voluntária e grande adesão, todos os colaboradores da empresa são convidados a expressar seus sentimentos, angústias e discutir os pilares da saúde emocional.

"Quando a gente vê a turma reunida, incluindo presidente e diretores, e percebe que o incômodo que sente é comum a todo mundo, acaba se vendo na fala do outro. Quando se sente andando com outras pessoas que também estão em busca de saídas, as pessoas se fortalecem mutuamente", completa Guimarães.

Ampliando as relações

Na prática, a principal transformação na Cia Athletica foi exercitar a escuta ativa. Dar atenção aos detalhes que afetam a vida de cada um, e, juntos, buscar soluções em comum. O "Troque suas lentes" foi tão bem sucedido que a empresa estendeu o programa para os frequentadores das academias.

"Houve uma mudança na mentalidade da empresa. Os professores estão adotando uma postura diferente, observando cada aluno não só como alguém que quer treinar e cuidar da parte física. Mas um ser humano integral, com seus medos, dores, lutos", explica Guimarães. "Isso acaba mexendo com o sentido de vida do professor, que vai além do seu papel profissional. É muito gratificante se sentir no papel de quem cuida do outro em um momento de tantos abalos."

O Prêmio Lugares Incríveis Para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da FIA para reconhecer as empresas que têm as melhores práticas em gestão de pessoas. Os vencedores são definidos a partir da pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que mede a qualidade do ambiente de trabalho, a solidez da cultura organizacional, o estilo de atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. As inscrições para a edição 2021 estão abertas e vão até 15 de junho.