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Como mudar de cidade - e de vida - sem deixar o trabalho em grandes centros

De acordo com pesquisa da Robert Half, empresa especializada em recrutamento, 70% dos profissionais pensaram em mudar de ares na pandemia. - Bram Naus/Unsplash
De acordo com pesquisa da Robert Half, empresa especializada em recrutamento, 70% dos profissionais pensaram em mudar de ares na pandemia. Imagem: Bram Naus/Unsplash

Carol Castro

Do UOL, em São Paulo

22/06/2021 04h00

A opção por viver em grandes centros urbanos entrou em xeque desde março de 2020. Escritórios fecharam as portas e funcionários se viram livres para morar longe dos locais de trabalho que precisavam frequentar, presencialmente, todos os dias.

De acordo com pesquisa da Robert Half, empresa especializada em recrutamento, 95% dos empregadores concordam que equipes híbridas, que se dividem suas jornadas de trabalho entre o escritório e a casa, vieram para ficar. E 84% destes empregadores liberaram seus funcionários para morar em outras cidades.

Entre os profissionais ouvidos pela pesquisa, 70% pensam em mudar de ares. Conversamos com algumas dessas pessoas que já tiraram os planos migratórios do papel - e eles garantem que valeu a pena: reduziram os custos de vida, encontraram novas oportunidades e até conseguiram realizar o sonho da casa própria.

Trabalho presencial na mala

Todo começo de ano Guilherme Soares Dias e Heitor Salatiel passam o carnaval em Salvador e vivem na cidade por três meses. Levam junto com eles a Caminhada Negra, um roteiro turístico em que narram as histórias negras caminhando por vários locais das capitais paulista e baiana. Só que em 2021 a pandemia atrapalhou os planos. Salvador apertou as restrições de circulação no início deste ano e os dois se viram limitados ao apartamento - como viviam em São Paulo.

Com a possibilidade do home office - Guilherme atua também como jornalista -, encontraram um novo retiro na Bahia. Trocaram a capital pela paradisíaca ilha de Boipeba, em Cairu. "Além do lugar belíssimo, a vida estava mais possível em Boipeba. São Paulo é uma cidade que cobra muito da saúde mental, e isso piorou na pandemia", explica Guilherme. "Aqui percebo um clima mais leve, com mais possibilidades de interação com a natureza. E, além disso, gasto 40% menos."

Caminhada Boipeba Roots - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Guilherme Soares e Heitor Salatiel aproveitaram a vida no interior da Bahia para organizar um projeto turístico em parceria com Manoela Ramos e outros moradores da ilha de Boipeba: a Caminhada Boipeba Roots
Imagem: Acervo pessoal

O novo lar também permitiu levar o trabalho presencial para outra cidade. Guilherme e Heitor, em parceria com uma moradora da ilha, Manoela Ramos, criaram um roteiro novo - a Caminhada Boipeba Roots -, com grupos pequenos, de até 15 pessoas, a céu aberto, todos de máscara, com os cuidados de saúde e distanciamento recomendados pelos órgãos de saúde. "Tem uma casa de farinha que as pessoas não consideravam como ponto turístico e agora está voltando a funcionar. É um passeio que fortalece e gera oportunidades para pessoas que até agora estavam esquecidas pelo turismo", relata Guilherme.

Voltar esporadicamente para São Paulo, onde ainda mantêm o apartamento alugado, faz parte dos planos. Mas por ora eles estão adiando o retorno.

Vista para o mato

O desafio do publicitário Giampietro Zanon era fazer duas crianças e 12 horas de trabalho diário caberem num apartamento pequeno de dois quartos. Juntamente com a esposa Mariana Henriques, designer, procurou uma nova casa em São Paulo, mas os preços estavam inviáveis. "Procuramos casas bem comuns, em bairros modestos, mas ficamos desesperados com os preços e fomos procurar opções no interior", relata Giampietro.

Em Vinhedo, a 75 quilômetros da capital paulista, encontraram uma casa ampla, com quintal e vista para o mato. "Nossa casa parece um sítio. Com o que gastávamos para alugar um apartamento de dois quartos na zona oeste da capital, moramos em uma casa com jardim e três quartos", conta Mariana.

As crianças se adaptaram bem - a escola do mais velho, segundo Mariana, mais parece uma chácara e a mensalidade custa menos do que na capital. Ainda que a designer sinta falta da vida agitada de São Paulo, ela aproveita o tempo com os filhos numa cidade mais pacata. "Eu gosto do cheiro do mato, de chuva e terra molhada. Aqui nós saímos e respiramos, não tem problemas de poluição. As crianças não tossem mais", diz. "O que nos fez decidir pela mudança foi pensar 'por que alugamos uma casa dessas uma vez por ano, para passar três dias, quando ela pode ser para sempre?'", questiona Giampietro.

Quando as reuniões presenciais se restabelecerem, o publicitário não vê razões para voltar de vez para a capital. Ainda que a distância até o trabalho tenha aumentado, o tempo de Vinhedo até o escritório segue quase o mesmo do que quando moravam em Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

O sonho da casa própria

Nathália Santos acorda cedo com um propósito: fazer aulas de caiaque. No final da tarde, aproveita a orla da Praia Grande, litoral sul paulista, para pedalar. Nesse meio tempo, em seu apartamento recém-comprado, faz home office na área de direito digital.

Nathália Santos - Acervo pessoal - Acervo pessoal
A advogada Nathália Santos deixou a capital paulista para viver, aprendendo caiaque e pedalando, em Praia Grande, no litoral sul.
Imagem: Acervo pessoal

Nathália, 35 anos, vivia uma rotina bem diferente até o ano passado. A bicicleta servia, durante um tempo, para amenizar o longo trajeto de uma hora e meia do Ipiranga até o escritório na Vila Olímpia, na capital paulista. Até que veio o combo - pandemia, home office e cirurgia de endometriose - que a fez refletir sobre a vida e a vontade de morar perto do mar.

"Quando vi que não precisaria mais ir até a Vila Olímpia todo dia, me questionei: para que continuar morando em São Paulo?", lembra. Partiu, então, em busca de um apartamento no litoral.

A advogada encontrou uma opção com dois dormitórios, 60m² e varanda, a quatro quarteirões da praia. E gastando menos. A taxa do financiamento sairia metade do valor do aluguel em São Paulo. Se precisar voltar para a capital quando a pandemia passar, o trajeto da praia até a cidade dura o mesmo tempo que levava antes de se mudar: de uma a duas horas. "Melhorei muito minha qualidade de vida. Mas reconheço meus privilégios, claro. Nem todos têm as mesmas condições financeiras ou um trabalho que permita uma mudança como essas", pondera.

De volta para casa

Logo que a pandemia começou, a mãe da designer Inara Pacheco Negrão, 35 anos, precisou fazer uma cirurgia no pulso. O susto motivou a filha a abandonar o apartamento recém-alugado em Santa Cecília, em São Paulo, e voar para Salvador. E de lá não sairia mais. "O aumento da pobreza em São Paulo ficou evidente. As ruas sem movimento mostraram para mim um lugar de exploração, com pessoas apenas sobrevivendo."

Inara Negrão - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Inara Negrão deixou São Paulo e montou o estúdio de design gráfico Grida, em Salvador. Em sua nova rotina, sobra até um tempo para se dedicar à cerâmica.
Imagem: Acervo pessoal

Inara avaliou seu custo de vida. Em São Paulo, pagava um aluguel de R$ 2,1 mil, num apartamento de um quarto, com varanda, em uma região agradável da cidade. Em sua cidade natal, reduziria os custos pela metade. "Eu precisava trabalhar muito mais para bancar a vida paulistana. Aqui em Salvador tenho mais tempo livre", conta. Encontrou um apartamento na capital baiana pelo mesmo valor, mas com 100 m².

A distância, no entanto, inviabilizou manter a sociedade que tinha num estúdio de design. "A gente não conseguia mais trocar, pensar juntos. Virou só uma coisa de 'fez tal tarefa?'. O trabalho à distância não funcionou para nós. Fazia mais sentido fortalecer as pessoas daqui", lamenta. Desfeita a sociedade, ficou com alguns clientes do antigo estúdio e abriu um novo, a Grida, com a irmã. E atingiu seu objetivo: trabalha menos, tem mais qualidade de vida e, enfim, tirou da caixa um torno de cerâmica que aguardava ser usado havia dois anos.

O Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da Fundação Instituto de Administração (FIA) que vai destacar as empresas brasileiras com os mais altos níveis de satisfação entre os seus colaboradores. Os vencedores serão definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience, que mede o ambiente de trabalho, a cultura organizacional, a atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e os vencedores do Prêmio devem ser anunciados em agosto.