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Mesmo com cenário mais favorável, BC não deve baixar juros amanhã; por quê?

Criticada pelo governo Lula, a manutenção da Selic é justificada pelo BC com base nas expectativas para a inflação - Getty Images/iStockphoto
Criticada pelo governo Lula, a manutenção da Selic é justificada pelo BC com base nas expectativas para a inflação Imagem: Getty Images/iStockphoto

Do UOL, em São Paulo

20/06/2023 04h00Atualizada em 20/06/2023 08h16

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central se reúne nesta semana para discutir os juros (Selic), hoje em 13,75% ao ano, e é esperada uma manutenção da taxa, sem corte neste mês.

Por que juros não devem cair agora

A decisão do Copom será anunciada nesta quarta-feira (21), por volta das 18h30. Especialistas ouvidos pelo UOL explicam que, embora criticado pelo governo Lula (PT), o atual patamar dos juros é justificado pelo BC com base nas perspectivas para a inflação, que deve continuar acima da meta em 2023 e 2024.

Projeções para a inflação explicariam a cautela do Banco Central. Ainda que a alta dos preços tenha desacelerado nos últimos meses, a expectativa do mercado é de que a inflação termine o ano em 5,12%, segundo o último Boletim Focus. O índice está acima da meta para 2023, que é de 3,25% (com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo).

Previsão é que inflação também irá estourar a meta em 2024, que é de 3%. Especialistas reforçam que o BC ainda considera as expectativas do mercado para o ano que vem (4%, de acordo com o Focus), que também apontam inflação acima da meta central. "Mês a mês, a inflação tem sinal de melhora, mas o BC quer uma confirmação", diz ao UOL Silvio Campos Neto, economista sênior da Tendências Consultoria.

Inflação atual é "artificial", impulsionada por desonerações. Também pesa o fato de que a recente desaceleração nos preços é resultado de uma "série de desonerações" feita no governo de Jair Bolsonaro (PL) e que "trouxeram a inflação para baixo", segundo lembra Thaís Zara, economista sênior da LCA Consultores. É o caso do teto do ICMS sobre combustíveis, válido até março.

Olhando à frente, é fato que há uma melhora do ambiente inflacionário. Os últimos indicadores vão nessa linha. O BC quer observar melhor o comportamento desses índices, porque é necessário ter uma maior consistência nos dados. As condições para queda nos juros estão sendo construídas.
Silvio Campos Neto, da Tendências

Queda vem a partir de agosto, aposta mercado

Expectativa é de que os juros comecem a cair no 2º semestre. A maior parte dos economistas prevê que o primeiro corte na Selic aconteça na próxima reunião do Copom, em agosto, quando os dados de inflação anual forem menos impactados pelas quedas artificiais registradas em julho, agosto e setembro de 2022.

Nova regra para controle de gastos também pode impactar a Selic. Todos os especialistas ouvidos pelo UOL citam o arcabouço fiscal como um dos principais fatores que devem influenciar diretamente a decisão do BC sobre os juros. O projeto já passou pela Câmara, e a expectativa é de que seja aprovado pelo Senado nesta semana.

Alguns analistas, porém, apostam em queda da Selic mais para frente. É o caso da Genial Investimentos, que prevê queda de 0,25 ponto percentual dos juros em setembro, para 13,5% ao ano. Depois, a projeção é de um corte de 0,25 em novembro e de 0,5 ponto em dezembro. Assim, os juros terminariam o ano em 12,75%, diz o analista Lucas Farina.

Na média das projeções, o mercado passou a esperar uma taxa de juros de 12,25% ao fim do ano. A XP, por exemplo, trabalha com um cenário base de corte de 0,25 ponto em agosto, seguido de cortes de 0,50 ponto até a taxa básica atingir 11% no 1º trimestre de 2024.

O que o BC vai fazer nos próximos meses afeta muito mais o ano que vem do que este ano. A partir de agosto, entra só 2024 na conta, aí fica mais fácil. Até lá, a gente provavelmente vai ter a aprovação do arcabouço fiscal, talvez a reforma tributária na Câmara. Tem uma série de incertezas que vão acabar se reduzindo.
Thaís Zara, da LCA

O mercado vem precificando um corte de juros em agosto. Coincide com o período no qual a inflação anual deve voltar a acelerar, a partir do início da saída dos meses em que foram registradas deflações em 2022 [julho, agosto e setembro]. Mas a melhor opção para o BC seria cogitar cortar a Selic a partir da reunião de setembro.
Lucas Farina, da Genial Investimentos

Política e exterior também afetam Selic

Discussão sobre mudança nas metas de inflação tem mês decisivo. O BC está atento à próxima reunião do Conselho Monetário Nacional, no dia 29 de junho, que pode trazer mudanças nas metas de inflação. Pelo sistema atual, que é adotado desde 1999, o CMN define em junho a meta de três anos à frente. Ou seja: a de 2023 (3,25%), por exemplo, foi fixada em 2020.

Votações do Congresso também estão no radar. Além da aprovação do arcabouço fiscal, as discussões sobre a reforma tributária podem impactar — positiva ou negativamente — os juros. O texto está na Câmara, e há expectativa de que o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) apresente o relatório nesta semana.

Cenário externo pode influenciar Selic, ainda que marginalmente. A guerra entre Rússia e Ucrânia, as commodities, a inflação na zona do euro e os juros no exterior também serão considerados pelo BC. Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, cita como exemplo a recente decisão do Fed (Federal Reserve), que interrompeu a alta dos juros nos Estados Unidos, mas sinalizou novos reajustes ainda em 2023.

A gente também tem uma melhora no cenário externo, o que sempre ajuda. O fim do ciclo de altas nos juros nos EUA tira um pouco do risco que vem de fora e traz um fluxo positivo para o Brasil, deixando o câmbio num patamar mais baixo.
Rafaela Vitória, do Inter