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Reinaldo Polito


Quando se criticam, Bolsonaro e Maia são sinceros ou estão interpretando?

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

07/05/2019 04h00

A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela. (Winston Churchill)

Quem ouve ou lê as palavras de Bolsonaro ou de Rodrigo Maia apenas pelo que elas dizem em si, só considerando o "valor de face", corre o risco de escorregar em grande equívoco. Os dois são políticos muito experientes, acostumados aos enfrentamentos verbais e, por isso mesmo, falam nas linhas e nas entrelinhas, mais até nas entrelinhas.

Cada frase, cada pausa mais ou menos prolongada, cada expressão fisionômica desses políticos pode guardar em suas profundezas mensagens sutis, camufladas, com objetivos nem sempre perceptíveis. Tentar entender os objetivos desses dois protagonistas da atual política brasileira e a forma como se expressam para atingir seus intentos é um instigante exercício de análise da comunicação.

Bolsonaro e Maia são sinceros quando falam?

Vamos supor duas possibilidades: a primeira, que estejam sendo sinceros e autênticos com a mensagem que transmitem. A segunda, ao contrário, que estejam apenas se valendo de artifícios, tentando assim, esconder suas verdadeiras intenções. Teremos de nos ater apenas às suposições, pois, embora seja possível deduzir o que cada um pretende, sempre poderá existir na análise uma margem de erro que nos leve a conclusões equivocadas.

Guardando o exagero e a ironia das palavras atribuídas a Charles de Gaulle, podemos utilizá-las para essa situação. Disse o líder francês: "Como nenhum político acredita no que diz, fica sempre surpreso ao ver que os outros acreditam neles". Há, portanto, a chance de que, em algumas situações, tanto Bolsonaro quanto Maia falem fazendo figa nas costas.

Não é apenas o que se fala, nem somente o que se ouve

Antes de entrarmos na análise da comunicação de cada um, gostaria de comentar rapidamente sobre alguns pontos que são fundamentais nos estudos da "Teoria da Recepção". Entre os diversos conceitos que poderíamos invocar, há um em especial que nos ajuda a compreender esse processo.

Diz o linguista francês Daniel Faïta, citado por Marlene Theodoro em sua obra "A era do eu S.A": "A atribuição de 'sentido' a um objeto (a uma palavra) não é uma operação de etiquetagem, mas, sim, o produto de uma relação que cada indivíduo, cada locutor ou interlocutor constrói a seu modo".

Portanto, não é o que eu escrevo ou falo, nem o que você lê ou ouve, mas sim o que é produzido dessa interação que fazemos com a mensagem.

Embates são normais na política

Vamos, então, ao nosso exercício. Desde que Rodrigo Maia foi reeleito presidente da Câmara dos Deputados, ele vive digladiando com Bolsonaro. Quando tudo parece estar resolvido após determinada contenda que ocupou as manchetes dos principais veículos de comunicação do país, lá vem outra agulhada para colocar ainda mais lenha na fogueira. Basta um dizer que aquele desentendimento é página virada para que outro ainda mais intenso surja para substitui-lo ou, em alguns casos, para se somar a ele.

Esse bate-boca não é novo na política. Talvez seja até possível dizer que a política vive desses conflitos. O cenário político é uma arena de fios incrivelmente emaranhados a que só poucos gladiadores têm acesso. Quem não gostar de confrontos não entre na política, pois esse é um campo onde os adversários ocupam diferentes trincheiras para defender suas ideias e combater os oponentes.

Há casos em que nem após a batalha a bandeira branca é hasteada. O governo atual, por exemplo, não perde oportunidade para criticar aqueles que o precederam. Ou não foi assim também com Lula e FHC, com o líder petista criticando o tempo todo o seu antecessor?

As alfinetadas são frequentes entre Bolsonaro e Maia

Vamos tomar como exemplo um fato mais ou menos recente, as declarações de Rodrigo Maia assim que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou o parecer favorável à reforma da Previdência, no dia 23, terça-feira. Depois de elogiar a atuação dos deputados, partiu para o ataque ao governo. Afirmou que o governo foi omisso e que deveria se envolver mais com o projeto da reforma da Previdência.

Chegou mesmo a insinuar que Bolsonaro é um presidente autocrático: "A gente precisa que o governo tenha uma base no sistema democrático. Não é o sistema autocrático, onde o governo impõe a sua posição. Nós vivemos numa democracia, e a decisão de hoje reafirma nossa democracia".

Quando Bolsonaro se pronunciou no dia seguinte em rede nacional sobre os fatos ocorridos na CCJ, comentou com a população o que havia ocorrido nessa primeira etapa da votação da reforma e aproveitou para fazer referência ao comprometimento de Rodrigo Maia. De certa maneira, pediu aos deputados praticamente o mesmo que o presidente da Câmara havia pedido a ele: cooperação e envolvimento.

Vamos supor que estejam sendo sinceros

Se as palavras de Maia e Bolsonaro foram sinceras, refletindo exatamente o que pensam, caracterizam o envolvimento de cada um em projetos importantes para o país, como o caso da reforma da Previdência. Não restaria dúvida sobre as intenções de cada um nesse processo.

No caso de Maia, fica evidente sua atuação junto aos deputados para conseguir a votação necessária, ao mesmo tempo em que sugere maior participação do governo nessa causa para garantir a vitória.

Bolsonaro, por sua vez, demonstra seu contentamento pelas conquistas obtidas na Câmara e agradece aos deputados e ao presidente da Câmara pela forma como participaram da votação.

Apesar das críticas feitas por Rodrigo Maia, não há como dizer que não tenham tido um comportamento republicano.

E se Bolsonaro e Maia só estiverem interpretando?

E se as palavras não tiverem sido sinceras? Bem, aí é preciso analisar o contexto no qual se desenrola a competição política e tentar deduzir qual o objetivo de cada um deles. Vamos iniciar com Rodrigo Maia. O que ele poderia pretender com esses ataques a Bolsonaro?

Maia é uma pessoa que transpira política até quando está dormindo. E também sabe que, como já disseram alguns especialistas e vários políticos, se a reforma for aprovada como está, o país poderá encontrar um nível tão elevado de desenvolvimento que tornará Bolsonaro invencível numa possível disputa à reeleição em 2022.

Por isso, para suas próprias pretensões, ou de alguém do seu íntimo círculo político, é importante minar a imagem do presidente. Dessa forma, ao dizer que Bolsonaro é omisso, que não se envolve e que não demonstra interesse pela reforma, por exemplo, ele procura enfraquecer a importância do "adversário" no resultado final.

Em uma situação como essa da reforma da Previdência, para aproveitar o mesmo exemplo, se for aprovada, ele, como presidente da Câmara, e os deputados é que seriam os responsáveis pela aprovação. Se, ao contrário, a reforma fracassar, e não for aprovada com essa força da proposta inicial, a culpa poderia recair sobre quem não soube ou não quis fazer as articulações necessárias.

Mas por que Maia bate e depois assopra? Ele sabe que os eleitores estão de olho nos acontecimentos. Se ele bater muito pesado, sem deixar saídas para Bolsonaro, poderá ser visto como traidor, e a possível derrota poderá respingar nele mesmo. Por isso, essas iniciativas de atacar e depois se reaproximar.

Foi exatamente o que aconteceu essa semana quando o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, comemorou o cancelamento da ida de Bolsonaro aos Estados Unidos. O presidente da Câmara dos Deputados foi rapidamente em defesa do presidente brasileiro. Disse que o prefeito de Nova York faz críticas à intolerância de Jair Bolsonaro, mas age da mesma forma. Rodrigo Maia disse ainda que discorda em muitas coisas do presidente Jair Bolsonaro na agenda de valores, mas que não há saída para os nossos desafios sem diálogo e respeito.

Mais uma vez, aproveitou para demonstrar solidariedade ao fazer a defesa do presidente brasileiro, mas não perdeu a oportunidade para dizer que discorda de muitas posições de Bolsonaro. Maia estaria, assim, pavimentando seus planos para, quem sabe, concorrer às próximas eleições presidenciais.

E Bolsonaro, por que não reage? Se as intenções de Maia forem mesmo a de enfraquecer a imagem de Bolsonaro, o presidente se tornou uma espécie de refém dele. Precisa do presidente da Câmara dos Deputados para aprovar as reformas e projetos importantes para o desenvolvimento do país, assim como precisa do ar para respirar. Se reagir, dará munições para que Maia ataque ainda com mais veemência.

Por isso, considerando a hipótese de que Bolsonaro diz o que não pensa, mas usa as palavras como artifício para atingir o que deseja, trata Maia por irmão, convida para encontros especiais, faz elogios em público. Nunca se esquece, como no caso do pronunciamento em rede nacional, de fazer referência ao presidente da Câmara.

Dessa forma, faz de conta que acredita serem as palavras de Maia sinceras e que interpretam verdadeiramente os sentimentos do presidente da Câmara. Neutraliza, assim, possíveis ataques mais ferozes ou a falta de empenho de Rodrigo Maia. Como tem consciência de que Maia precisa se comportar bem por causa da opinião pública, é a única forma de manter o "parceiro" na linha.

Esse é um processo de comunicação sutil, que exige muita habilidade dos dois lados. Um passo em falso poderá pôr tudo a perder. Precisam usar a inteligência para continuar firmes e bem guarnecidos em suas trincheiras, indo para o ataque apenas quando a circunstância for bem adequada.

Independentemente de eles estarem sendo ou não sinceros em seus discursos, vale a pena observar o comportamento de cada um e quais são suas estratégias de comunicação em cada passo de suas atuações. A Câmara dos Deputados será a porta de entrada para todos os projetos de Bolsonaro. Conviver com Maia e romper suas defesas serão alguns dos desafios mais importantes do seu governo.

Superdicas da semana:

  • Às vezes as pessoas falam mais nas entrelinhas que nas linhas
  • Tentar entender as verdadeiras intenções de quem fala é um ótimo exercício
  • Não é o que o emissor diz, nem o que o chega ao receptor, mas a interação de todo esse processo com a mensagem
  • É preciso analisar se vale a pena reagir a um ataque verbal. Muitas vezes, a melhor estratégia é o silêncio ou o elogio ao agressor

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Reinaldo Polito