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Reinaldo Polito


Bolsonaro ainda não desceu do palanque

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

31/07/2019 17h47

Só pelo título já é possível contabilizar a quantidade de descontentes com este texto. É difícil explicar até para as pessoas mais próximas, que sabem do meu foco exclusivo em comunicação, que o fato de eu mencionar o nome de um político ou analisar a qualidade da sua forma de se expressar não significa necessariamente crítica ou elogio à sua ideologia.

O fato mais curioso é que, reiteradas vezes, ao analisar a comunicação de determinado político, vários leitores se manifestam indignados, alguns me criticando porque elogiei aquele que detestam, outros porque critiquei aquele de quem tanto gostam. E as opiniões são divergentes sobre a mesma análise que fiz.

Pois é, assim funciona a "audição seletiva" no processo de recepção: assimilam apenas a mensagem que favorece a sua causa e fecham os olhos e ouvidos para as informações que beneficiam o que seja contra sua forma de pensar. Esse é um estudo antigo. Lazarsfeld, Berelson & Gaudet, em 1944 chegaram a conclusões interessantes sobre esse tema: as pessoas procuram ler jornais e ouvir discursos favoráveis aos seus próprios pontos de vista.

Posto isso, voltemos a Bolsonaro. Ainda que o processo seja seletivo (e aqui no sentido amplo de ler e ouvir), mesmo os mais apaixonados pelo presidente, em certos momentos, dizem que ele tem ultrapassado as fronteiras do bom senso. Fala sobre temas polêmicos, sem nenhuma necessidade, em momentos inadequados.

Dessa forma, canaliza o centro das atenções para comentários descabidos, deixando para segundo plano fatos mais relevantes do seu governo. Enquanto as pessoas discutem suas afirmações de que o pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, não foi morto pelos militares, mas por colegas de guerrilha, deixam de avaliar importantes conquistas, como, por exemplo, a aprovação pelos deputados da reforma da Previdência.

Da mesma forma, enquanto ele relativiza a importância do massacre em Altamira coloca uma cortina de fumaça que impede a visão para fatos extraordinários, como a liberação do FGTS, que poderá tirar da inércia parte da nossa economia. Ou ainda o grande feito da polícia federal ao prender os hackers, que de maneira criminosa invadiram os celulares das autoridades do país.

E já que o presidente gosta tanto de citar a Bíblia, como espécie de norte para as suas ações, desde a época da campanha: João 8:32: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", talvez esteja na hora de adotar outra passagem da Bíblia para o momento atual, Eclesiastes 3:1: "Tudo tem a sua ocasião própria e todo o propósito debaixo do céu tem o seu tempo. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou (...) tempo de calar, e tempo de falar". Esta parece ser a oportunidade de o presidente trabalhar a seu favor. Houve e haverá tempo de falar; este indica ser mesmo o tempo de calar.

E se essa passagem bíblica não for suficiente para convencer Bolsonaro a levantar a bandeira branca e recolher as armas, pode ser que outra citação o motive a refletir melhor a respeito de suas atitudes. Salmo 52: "O peixe morre pela boca, o homem pela língua".

Ninguém está sugerindo que o presidente deixe de falar, absolutamente. Falar até faz parte de suas atividades no comando da Nação. O que Bolsonaro precisa ter em mente é que a época da campanha passou. Agora é a oportunidade de descer do palanque e tentar aglutinar o país.

Afinal, temos causas mais importantes que nos preocupam. Ou será que 12,8 milhões de desempregados e crescimento pífio de 0,8% ao ano não são problemas suficientes para deixar essas picuinhas de lado? E antes que venham os discursos de que o desemprego e o baixo crescimento são heranças de governos passados, vamos lembrar mais uma vez --está na hora de descer do palanque.

Superdicas da semana:

  • Há tempo de calar, e tempo de falar
  • O peixe morre pela boca, o homem pela língua
  • Eleger assuntos relevantes para compor discursos é difícil, mas sempre necessário
  • A veemência do discurso de campanha nem sempre se aplica às falas do governo

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL