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Reinaldo Polito


No teleprompter, Bolsonaro se parece com uma criança aprendendo a ler

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

27/08/2019 04h00

Quem não leva a sério a preparação de algo está se planejando para o fracasso (Benjamin Franklin)

Deixe um pouco de lado a ideologia. Desconsidere por um momento a simpatia ou antipatia pelo Bolsonaro e vamos nos preocupar só com a comunicação dele. Sei que é difícil perambular por essa isenção, mas vale a pena tentar. Essa análise nos possibilitará avaliar também a nossa própria comunicação e, quem sabe, aproveitarmos as observações para o nosso aprendizado.

Não tem jeito. Definitivamente, Bolsonaro não tem a mínima competência para usar o teleprompter. Ele não sabe se olha para o texto ou para os ouvintes. Se olha para o vidro que está à sua esquerda ou à sua direita. Às vezes se torna difícil até entender o que ele está tentando dizer, pois, como fica desconfortável, não tem a menor ideia do que está lendo. Por isso, faz pausas inadequadas no meio das frases e trunca o raciocínio.

Sua insegurança é tão grande que provoca consequências negativas no seu desempenho diante do público: ri nervosamente. Apoia o corpo ora sobre a perna esquerda, ora sobre a direita. Põe e tira os óculos. Ele se comporta como se fosse uma criança que está aprendendo a ler. Uma verdadeira tragédia oratória.

A experiência tem sido negativa

Todas as suas experiências com o teleprompter foram negativas, tanto ao usar as placas de vidro na tribuna como nas leituras que faz diante das câmeras. Pensando aqui agora, sorte dele não ter tido tempo de TV durante a campanha, pois se lesse os discursos com essa inabilidade, correria o risco de afugentar seus eleitores.

A sua última experiência foi desastrosa. Na sexta-feira (23), quando fez o pronunciamento em rede nacional pela televisão parecia um principiante nervoso. Diante da câmera, ficou com o corpo rígido, movimentando apenas o braço direito, usando gestos repetitivos. Falou com os olhos vidrados. Pronunciou as palavras sem interpretar seu verdadeiro sentido. Do início ao fim, truncou as frases com pausas fora de lugar.

A falta de domínio de um equipamento, além de prejudicar a concentração dos ouvintes, pode até afetar a credibilidade do orador. Sempre que alguém me pergunta se pode fazer uma palestra usando determinado aplicativo, respondo que sim, desde que consiga manuseá-lo com bastante competência.

As vantagens do teleprompter

O teleprompter é muito útil, pois permite que o orador ou apresentador leia o texto ao mesmo tempo que mantém contato visual com os ouvintes. Quando bem utilizado, mesmo estando o orador em um palco diante do público, em poucos segundos as pessoas já não notam mais a presença da placa de vidro, onde o texto é projetado e só pode ser visto pelo orador.

O ex-presidente Michel Temer, por exemplo, se deu muito bem com o teleprompter. Proferia seus discursos com desenvoltura e muita competência. Tanto assim que, para não ter problema de logística, ao enviar o aparelho de um lado para outro do país, o governo adquiriu um segundo equipamento.

Já vi Bolsonaro lendo textos impressos no papel. Se não foi lá uma maravilha, pelo menos não comprometeu. Por isso, das duas uma: ou ele treina bastante para resolver o seu problema com o equipamento ou passa a ler os discursos no papel, o que não teria problema nenhum.

Dica de ouro para o Bolsonaro

O presidente precisa treinar exaustivamente até ficar craque diante do teleprompter, e vou dar um conselho que poderá modificar totalmente a qualidade das suas apresentações:

Bolsonaro, fale de improviso. Estude e discuta bem a mensagem que irá transmitir, até ficar familiarizado com ela. Posicione-se naturalmente diante da câmera, exatamente como faz todos os dias ao conversar com os jornalistas. Se falar com essa descontração, só moderando um pouco a linguagem, irá se sair muito bem.

Peça que alguém faça uma pergunta sobre o assunto que irá expor e fale com naturalidade, como se estivesse respondendo para o interlocutor, mas olhando para a câmera. Se não ficar bom, repita a resposta até que consiga falar de forma correta, espontânea e desembaraçada.

Em seguida parta para a próxima questão, até completar todas as informações. Esses pronunciamentos oficiais geralmente são curtos. Esse último durou pouco mais de quatro minutos. Quase sempre são ainda mais enxutos, com dois a três minutos de duração.

Por tudo o que tenho acompanhado em suas apresentações improvisadas, não tenho dúvida de que terá sucesso. No início talvez encontre um pouco de dificuldade, mas depois de pegar o jeito acho que nunca mais vai abandonar essa forma de se apresentar.

Como treinar com o teleprompter

Para treinar bem com o teleprompter, siga algumas recomendações que ajudarão bastante no resultado da leitura. Treine exaustivamente até sentir que domina totalmente o texto.

- Atenção: você terá domínio da leitura com uso do teleprompter depois de dez a 15 leituras de cada texto. Há casos em que se exige ainda mais.

- Faça marcações no texto para as pausas e para os momentos em que deverá olhar para a plateia. Por exemplo, um traço para a pausa e dois traços para quando tiver de olhar para o público.

- Leia em silêncio duas ou três palavras que antecedem os dois traços e as pronuncie olhando para os ouvintes. Você vai olhar a placa de vidro, mas deverá ver a plateia. Faça a leitura de forma cadenciada, seguindo bem as marcações do texto.

- Não tenha pressa de chegar ao final do parágrafo. As palavras não desparecerão da placa de vidro. O operador do aparelho seguirá a velocidade da sua leitura. Se resolver fazer alguma pausa para um comentário complementar, ele ficará aguardando o retorno da leitura.

- Treine deixar o semblante arejado, simpático e expressivo. É possível atingir esse objetivo com um bom treinamento. Esse é outro defeito grave na comunicação de Bolsonaro. Parece que está bravo quando lê.

- Faça o possível para não mexer os olhos durante a leitura. Exercite de maneira a manter os olhos fixos no meio da linha e em condições de ler a frase toda. Talvez essa seja a habilidade mais difícil de ser conquistada, mas com treino consegue.

Dica importantíssima

- Se você tiver muito domínio do tema, escreva no teleprompter apenas algumas frases para guiar sua apresentação, como faz a maioria dos presidentes americanos. Você lê a frase e em seguida comenta, discute, complementa as informações falando de improviso.

- Depois leia a frase seguinte e faça comentários adicionais, até que a mensagem tenha sido totalmente transmitida. Assim, você terá a segurança das frases escritas e a liberdade para desenvolver o raciocínio diante dos ouvintes.

Pronto. Tudo muito simples. Basta apenas um pouco de boa vontade e bastante exercício. Depois de dominar completamente a técnica, irá se sentir tão à vontade que poderá ler os textos até mesmo sem ensaiar.

Superdicas da semana:

  • Só use o teleprompter se puder se sentir bastante à vontade com ele
  • Se não tiver domínio do aparelho, prefira a leitura do texto impresso em papel
  • Pausas bem-feitas e contato visual são importantes para se sair bem na leitura
  • Se tiver bastante domínio do texto, prefira usar apenas algumas frases de apoio e desenvolver o raciocínio falando de improviso

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL