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Reinaldo Polito


Quem lacra com comentário político radical não lucra com amigos e negócios

Carro da Acadêmicos de Vigário Geral trouxe um boneco crítico ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - LUIZ GOMES/ ESTADÃO CONTEÚDO
Carro da Acadêmicos de Vigário Geral trouxe um boneco crítico ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: LUIZ GOMES/ ESTADÃO CONTEÚDO
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

27/02/2020 04h00

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.
Aristóteles

E aí, você tem subido nas tamancas e falado sem censura tudo o que lhe dá na telha?

Especialmente nessas épocas bicudas de embates ideológicos, há quem justifique suas ações porque o sangue ferve e fica difícil segurar a língua. Dizem que é duro aguentar essa gente limitada, que parece não ter mais que dois neurônios, falando asneira e dando guarida a posições indefensáveis. Afirmam que a sua liberdade de expressão está amparada até pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz, no artigo 19:

"Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras".

E não só a Declaração dos Direitos Humanos como também a Constituição Federal de 1988 resguarda essa liberdade de expressão no art. 5º [IV]: "É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". E [IX]: "É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

Liberdade de expressão não é discurso de ódio

Quem para um instante para refletir revela que tem consciência dos limites que separam a "liberdade de expressão" do "discurso do ódio".

Outros, entretanto, ultrapassam essa linha e soltam o verbo sem se preocupar se suas mensagens ou atitudes estejam ou não incitando contra uma pessoa ou um grupo, ou os estejam inferiorizando por causa de religião, etnia, raça, gênero, nacionalidade, orientação sexual ou outros aspectos que possam ser considerados discriminatórios.

Excetuando-se essas situações extremas, afinal, vale a pena ou não fazer uso dessa liberdade de expressão? Será que não haveria nenhuma consequência para aqueles que lançam mão do seu direito de se expressar? Embora a Constituição seja clara quanto a esse direito, o bom senso recomenda alguma reflexão antes de tomarmos a decisão de agir ou não.

É quase um cálculo de custo/benefício. O que podemos ponderar? Será que se eu me manifestar com toda essa liberdade a que tenho direito, às vezes até por vaidade, posso me prejudicar ou prejudicar alguém do meu relacionamento? Mesmo que prejudique, prefiro dizer o que penso e arcar com as consequências? Afinal, cada um é dono de suas decisões, e deveria saber o que é bom ou não para a sua vida.

Os exemplos estão à nossa volta

Por exemplo, a escola de samba Acadêmicos de Vigário Geral resolveu, na sexta-feira (21), abrir a primeira noite de desfiles cariocas da Série A fazendo críticas ao presidente da República. Em um de seus blocos, incluíram um palhaço gigante vestido de Bolsonaro. Essa imagem para ridicularizar o presidente só foi possível graças à liberdade de expressão. Como consequência, em determinados setores das arquibancadas receberam aplausos e vaias, sendo que as vaias foram mais expressivas.

Com essa iniciativa, sabiam que iriam contrariar uma parte da população, e que, dependendo de suas pretensões, poderiam ser prejudicados. Nesse caso, um juiz que tivesse tendências bolsonaristas talvez pudesse até determinar as notas com má vontade. Devem ter colocado na balança os prós e contras para avaliar as consequências, e decidido que valeria a pena fazer o que tinham vontade. Lacraram, mesmo sabendo que não iriam lucrar.

Nas minhas atividades profissionais convivo com uma infinidade de empresários. Salvo um ou outro que foram bafejados pelos ventos favoráveis da sorte ou da oportunidade, os outros travam uma luta muito árdua para manter seus negócios. Em alguns casos, se perderem um cliente importante, poderá representar o fracasso da sua atividade.

Chamei a atenção de alguns deles diversas vezes para o fato de que, se continuassem a repassar mensagens com conotação política, poderiam desgostar seus clientes e fornecedores por conflito de opiniões. A maioria ouviu e acatou. Alguns, entretanto, resolveram extravasar tudo o que pensavam a respeito da situação política atual. E, em certos casos, se deram mal.

Perceberam que alguns contatos se sentiram contrariados e se afastaram. Em certos casos, tiveram de calçar a sandália da humildade, implorar para serem recebidos, pedir desculpas e tentar a reconciliação. Aquele dedinho nervoso que enviava mensagens sem vacilar foi contido.

São incontáveis os exemplos de artistas que, pelo seu talento, levaram multidões para os shows e decidiram marcar sua posição ideológica durante sua apresentação, fazendo críticas ou elogios a um ou outro político. Parte do público, que possuía posicionamento distinto, começou a vaiar, interrompendo o show. Em alguns casos, o evento teve de ser cancelado. Quase todos que conseguiram superar o incidente nunca mais se comportaram assim.

É raro encontrar alguém sensato para discutir

Embora não existam muitas pessoas com as quais possamos discutir política quando há divergência de pensamento, podemos ter a ventura de encontrar um ou outro mais equilibrado. Com esses, sem perder a serenidade, até como exercício de posicionamento, daria para fazer uma tentativa.

Mesmo assim, teria de ser uma pessoa sem nenhuma ligação com as atividades profissionais, e sabendo que, em qualquer caso, é sempre muito arriscado. Alguns se mostram cordatos por fora, mas, por dentro, ficam enraivecidos. E, sem discussão, com o tempo também se afastam.

Especialmente quando o relacionamento ocorre por um objetivo específico, como negócios profissionais nas empresas ou atividades liberais, a recomendação é que não seja contaminado com discussões ideológicas. Se esse cuidado for negligenciado, não haverá nenhum lucro. Ao contrário, o risco de que possa haver prejuízo é quase matemático.

No princípio, achei que essa disputa ideológica fosse efêmera, que, passado um tempo, os ânimos iriam serenar, e que a convivência voltaria a ser pacífica, como foi ao longo dos últimos anos. Hoje, confesso que ando meio desanimado. Os confrontos ideológicos estão cada vez mais ferozes. Velhas amizades são desfeitas, boas convivências familiares são enfraquecidas —e até rompidas. Será que vale a pena?

Superdicas da semana

  • Quem lacra não lucra
  • Discussões políticas quase sempre não combinam com negócios
  • Mesmo com pessoas de nosso íntimo relacionamento as discussões políticas devem ser evitadas ou apaziguadas
  • Se resolver discutir política, procure manter sempre a serenidade
  • Se perceber que a conversa está tomando rumo de confronto, mude de assunto

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito