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Alta produtividade no home office afeta tempo livre dos trabalhadores

56% dos brasileiros em home office têm dificuldade em delimitar horários para o trabalho - Victoria Heath/Unsplash
56% dos brasileiros em home office têm dificuldade em delimitar horários para o trabalho Imagem: Victoria Heath/Unsplash

Bruno Lazaretti e Diogo Antônio Rodriguez

Do UOL, em São Paulo

22/08/2020 04h00

Resumo da notícia

  • 56% dos brasileiros em home office têm dificuldade em delimitar horários para o trabalho; entre os jovens abaixo de 25 anos, o índice é de 82,6%
  • Dissolução entre o espaço doméstico e profissional, ausência da jornada até o escritório e medo de desemprego podem explicar o problema
  • Empresas começam a abordar a questão, com novas normas de horário, orientação a gestores e apoio psicológico
  • Especialistas recomendam pontuar fim do expediente com atividades de lazer, meditação ou exercícios físicos

Passados cinco meses de home office, empresas têm se afirmado satisfeitas com os resultados desse novo modelo de trabalho. Muitas atestam até crescimento na produtividade. Por outro lado, o alto rendimento pode ter um custo: as horas livres dos funcionários, que não conseguem "encerrar o expediente" dentro da própria casa.

Segundo a pesquisa realizada com 464 trabalhadores em home office pelo Centro de Inovação FGV-SP, 56% dos entrevistados afirmaram que encontram muita dificuldade ou dificuldade moderada para equilibrar as atividades profissionais e pessoais. Entre os entrevistados com 25 anos ou menos, o índice salta para 82,6%.

Algo similar foi detectado em um estudo da Fundação Instituto de Administração (FIA): 28% dos entrevistados discordaram da afirmação "o tempo que dedico ao trabalho é equilibrado entre as necessidades da empresa e as minhas necessidades pessoais". Foi a maior rejeição entre todas as afirmativas da pesquisa sobre gestão de tempo.

Na Ambev, uma nova proposta de horários

Trânsito - WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO - WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jornada para o trabalho ajudava a delimitar horários do expediente
Imagem: WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Consultores de RH e especialistas em gestão de pessoas também percebem a tendência. "É o perigo de dissolver a fronteira entre ambientes doméstico e profissional. Há um risco não só em relação ao tempo, como estar disponível 24 horas por dia, mas também em relação à imersão no trabalho. Tem gente deixando de beber água, esquecendo de fazer refeições", afirma Rodolfo Araujo, vice-presidente para América Latina da consultoria United Minds.

A Cervejaria Ambev detectou esse comportamento logo cedo. "Uma das primeiras medidas que tomamos foi reorganizar a dinâmica profissional. O horário recomendado passou a ser das 10h às 16h, para que as pessoas pudessem equilibrar outras atividades com o trabalho", afirma Mariana Holanda, responsável pela área de saúde mental, bem-estar, diversidade e inclusão da empresa.

Essas "outras atividades", como exercício, lazer e meditação, também são a sugestão da psicóloga Renata Macedo para estabelecer o fim do expediente. Isso porque os trabalhadores perderam um aliado "inusitado" nessa tarefa: o trânsito.

"De certa forma, o processo ir ou voltar da empresa nos impunha uma certa organização. Rotinas são protetivas para a saúde mental porque precisamos ter a sensação de que as coisas têm um início, um meio e um fim", explica Renata, coautora de um guia editado pelo Sesi sobre saúde mental na pandemia. "Então estabelecer uma nova rotina é essencial", conclui.

Recomendação do chefe: coloque seu almoço na agenda

Para que essa nova rotina dê certo, gestores precisam se mostrar receptivos. É o que afirma Dulce Brito, docente do curso "Saúde mental nas organizações em tempos de pandemia", do Ensino Einstein. "Sempre orientamos líderes de equipe a perguntar aos colaboradores quais são suas necessidades neste momento. E muitos colaboradores respondem pedindo respeito aos horários, pedindo garantia de que não vão perder o emprego".

Na OLX Brasil, o CHRO Sérgio Povoa também detectou um aumento na jornada de trabalho motivada pelo perigo do desemprego. "A pessoa tem medo de ser demitida. Aí o que ela faz? Trabalha que nem uma louca. Não para nem para almoçar. Eu mesmo, na primeira semana [de home office], esquecia. Acabava almoçando às 15h, às 16h?", relembra.

Para solucionar a questão, a OLX decidiu aderir ao compromisso público de não-demissão, organizado por algumas instituições do setor privado. E passou a sugerir que os funcionários entendessem o tempo para si mesmo como um "compromisso". "Demos essa dica para todo mundo: coloquem o horário de almoço na agenda. Coloquem o horário para estar com as crianças na agenda. E outras coisas desse tipo", afirma Povoa. "Não temos dúvidas de que sem isso, o burnout vai chegar rapidamente".

Menos reuniões, mais tempo com a família

Home office - Getty Images - Getty Images
30% dos brasileiros sofrem com Burnout, esgotamento físico e mental por excesso de trabalho
Imagem: Getty Images
A Síndrome de Burnout (distúrbio emocional ligado ao esgotamento profissional extremo) é um perigo real. No ano passado, a Organização Mundial da Saúde a incluiu oficialmente em seu catálogo de doenças. Segundo a Associação Nacional da Medicina do Trabalho, 30% dos brasileiros já sofrem com o problema - mesmo sem a pandemia.

"Não tivemos casos de burnout, mas estamos tomando o máximo de cuidado para que os colaboradores não fiquem estressados", relata Carla Alves, diretora sênior de RH da Oracle para a América Latina. Assim como outras companhias, a Oracle elaborou um pacote de apoio à saúde mental dos seus funcionários, como sessões gratuitas de terapia com psicólogos.

O principal recurso de prevenção, porém, é o bom senso e o estabelecimento claro de limites. "As pessoas precisam ter certas atenções, como não participar de reuniões o dia todo ou deixar de fazer pausas", explica. "O convívio familiar também é importante para este momento."

O Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da Fundação Instituto de Administração (FIA) que vai destacar as empresas brasileiras com os mais altos níveis de satisfação entre os seus colaboradores. Os vencedores serão definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience, que vai medir o ambiente de trabalho, a cultura organizacional, a atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. As inscrições estão abertas até o dia 12/9 e podem ser feitas, gratuitamente, no site da pesquisa FIA Employee Experience.