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Reinaldo Polito


Moro acertou em estratégia de comunicação para se defender dos vazamentos?

Andre Coelho/Folhapress
Imagem: Andre Coelho/Folhapress
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

2019-06-18T04:00:00

18/06/2019 04h00

A verdade é sempre o argumento mais forte
Sófocles

O que reza a cartilha da boa comunicação quando alguém precisa se defender de ataques adversários? Preparar muito bem a linha de argumentação. O orador não pode ser negligente nesse preparo. Com disciplina e critério, deverá relacionar todos os argumentos consistentes de que puder lançar mão.

Como se processa o julgamento em um debate entre acusação e defesa? Os argumentos apresentados pela acusação formam a tese, enquanto que os argumentos desenvolvidos pela defesa constituem a antítese. Do choque entre a tese e a antítese, o que não for destruído resultará na síntese, na base do julgamento.

Por isso, tanto um lado quanto o outro deverão observar com rigor se todos os argumentos contrários foram devidamente refutados. Se um argumento escapar, reforçará a posição adversária. Para analisar, entretanto, os possíveis argumentos contrários, o orador precisa de tempo, pois todos os detalhes devem ser considerados.

O dilema do orador

Qual é, todavia, o grande dilema do orador quando faz um pronunciamento para defender sua causa? Não saber se determinada objeção às suas ideias está mesmo na mente dos ouvintes. Talvez essa seja a situação mais comum e complexa na apresentação de argumentos.

Se a objeção existir e não for refutada, no final os ouvintes não concordarão com sua proposta. Se, ao contrário, a objeção não existir e o orador tentar refutá-la, correrá o risco de criar um argumento contrário que nem sequer havia sido imaginado. Há situações em que o orador levanta uma objeção que não existia sem possuir ao menos condições de fazer a refutação.

O ministro Sergio Moro ficou numa saia justa diante da notícia de vazamento de suas conversas, quando ainda era juiz, com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato em Curitiba. O conteúdo das conversas foi divulgado pelo site Intercept no dia 9, domingo. A troca de mensagens indica que os dois trocavam colaborações.

É preciso levar em conta que, quando o orador tem certeza de que o oponente usará determinados argumentos para atacar, preventivamente poderá enfraquecer a argumentação contrária dizendo que o adversário o acusará daquela maneira. No caso de Moro, essa hipótese teve de ser descartada, já que ele não poderia ter certeza de que novos vazamentos ocorreriam.

A estratégia de Moro

Com sua larga experiência em julgamentos, Moro sabe como poucos que precisaria ser muito cuidadoso com suas declarações. Se fizesse afirmações precipitadas, poderia construir sua própria armadilha. Se deixasse de se pronunciar, talvez fosse visto como omisso diante de fatos, aparentemente, tão graves, e até tachado de culpado pelos seus acusadores.

Nesse caso, o timing deveria ser preciso --nem muito rápido para não correr riscos nem muito demorado para não se desgastar. Parece que pelo menos na estratégia, independentemente da opinião que cada um possa ter sobre o caso, Moro foi preciso. Na mesma data do vazamento, divulgou nota se defendendo.

Observe como o ministro aproveitou o pouco tempo que dedicou à sua defesa para desqualificar a fonte das informações, ressaltar que a ação foi criminosa e, procurando conquistar a solidariedade da imprensa, enfatizar que não foi procurado antes da divulgação, o que contraria regra básica do jornalismo:

"Sobre supostas mensagens que me envolveriam publicadas pelo site Intercept neste domingo, 9 de junho, lamenta-se a falta de indicação de fonte de pessoa responsável pela invasão criminosa de celulares de procuradores. Assim como a postura do site que não entrou em contato antes da publicação, contrariando regra básica do jornalismo".

O argumento mais relevante no final

Em seguida, procura desconsiderar a importância das gravações, revelando que ali não se encontra nenhuma anormalidade, e, como argumento final, faz uso das informações mais contundentes, enfatizando que as notas estão descontextualizadas, divulgadas com sensacionalismo, e que não consideram o gigantesco esquema de corrupção enfrentado:

"Quanto ao conteúdo das mensagens que me citam, não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato".

No sábado, dia 15, Moro já havia conseguido o tempo necessário para pensar nas declarações mais adequadas. Divulgou nota à imprensa afirmando que "não reconhece a autenticidade e não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas".

No tempo certo, sem fazer afirmações que poderiam ser contestadas a partir de novos vazamentos, Moro reafirmou que a invasão foi criminosa e deixou a suspeita de que o texto poderia ter sido adulterado e editado. E para não dar margem a dúvidas de que poderia estar se esquivando, pediu a averiguação do conteúdo por autoridade independente:

"A necessidade de que o suposto material, obtido de maneira criminosa, seja apresentado à autoridade independente para que sua integridade seja certificada".

Tecnicamente essa deveria ter sido mesmo a atitude de Moro, ou de qualquer outra pessoa envolvida em situações semelhantes. Vamos aguardar a sequência dos fatos. Será que estaríamos em condições agora de julgar?

Superdicas da semana:

  • O orador deve preparar com critério e disciplina sua linha de argumentação
  • Deve também prever, com a maior clareza possível, quais serão os argumentos contrários
  • Precisa tomar cuidado para não antecipar argumentos que sequer seriam levantados
  • Considerar como base para sua argumentação apenas argumentos que não possam ser refutados

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL