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Bolsonaro melhora nos discursos, mas piora no comportamento

EVARISTO SA/AFP
Imagem: EVARISTO SA/AFP
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

31/12/2019 04h00

Ninguém poderá jamais se aperfeiçoar se não tiver o mundo como mestre. A experiência se adquire na prática.
William Shakespeare

Nem os mais fanáticos adeptos do presidente acreditavam que Jair Bolsonaro conseguiria sobreviver no primeiro ano de mandato sem arrumar algum tipo de encrenca irreversível com a sua comunicação. Afinal, ele saiu da campanha e vestiu a faixa presidencial sem mudar o jeito de se comunicar.

Já na cadeira de primeiro mandatário, sua comunicação obedecia ao mesmo tom de sempre. Em seus discursos, entrevistas e conversas não faltavam os palavrões, as brincadeiras politicamente incorretas e o bate-boca com jornalistas, opositores e até correligionários. Cansei de ouvir comentários desanimados: será que ele nunca vai aprender a falar?

Excetuando-se aqueles que não gostavam do presidente, e que por isso mesmo encontravam a cada dia uma infinidade de motivos para censurá-lo, as demais pessoas elogiavam suas virtudes, mas elegiam sua comunicação como ponto mais vulnerável. Diziam que ele é tosco, primário, desqualificado, inconveniente. Parece até que Bolsonaro com suas atitudes contaminou o ambiente e se transformou em má influência para os ministros.

Paulo Guedes, Ricardo Salles, Abraham Weintraub e Damares Alves, só para citar alguns, em várias oportunidades perderam a linha e, desnecessariamente, partiram para o confronto verbal com a oposição e até com jornalistas. Com o tempo, os ministros foram ajustando o comportamento e passaram a se comunicar com mais equilíbrio e eficiência. Especialmente Paulo Guedes, que depois de derrapar no início se tornou um orador exemplar.

Bolsonaro não tem intenção de mudar

Essa mudança não ocorreu com Bolsonaro. Entra mês, sai mês e o seu comportamento, não muda e, ao que tudo indica, não mudará. Ele mesmo já afirmou diversas vezes que foi eleito falando dessa forma e vai continuar se expressando assim. E mais, reiterou que quem não estivesse satisfeito que não votasse mais nele.

E não é só esse jeito direto, rude, sem verniz que poderia ser considerado como ponto negativo em sua comunicação. Principalmente nos primeiros meses de governo, Bolsonaro se apresentava com postura rígida, semblante crispado, olhar vidrado e frases truncadas. Foi assim na sua estreia internacional em Davos e no primeiro pronunciamento que fez em rede nacional.

Nas oportunidades em que precisava usar o teleprompter, a situação era quase desesperadora. A falta de experiência no uso do aparelho fazia com que sua comunicação fosse ainda pior. Ele não sabia como se posicionar. Tinha dúvida se olhava para os vidros, onde o texto era projetado, ou se olhava para a plateia. Se tirava ou não os óculos para ler. E essa insegurança era perceptível para os ouvintes.

O progresso na comunicação de Bolsonaro

Com o tempo, Bolsonaro foi melhorando suas apresentações mais formais. Aprendeu a se comunicar melhor diante do teleprompter, deixou de truncar as frases, aprendeu a respeitar a pontuação e, principalmente, como ler o texto e transmitir a mensagem olhando para o público. Em setembro, na Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro fez o seu melhor discurso, tanto pelo conteúdo quanto pela forma.

Desse momento em diante foi aprimorando a cada apresentação. A sequência de exposições no Brasil e nos mais diferentes cantos do mundo deu ao presidente o traquejo de que precisava para ter um bom desempenho em seus discursos. Hoje, quando fala em público, não vemos mais aquele semblante amedrontado, como se fosse um principiante se apresentando pelas primeiras vezes diante da plateia.

Em síntese, foi assim a comunicação de Bolsonaro no primeiro ano de governo. Aprimorou seus discursos formais, mas não deu jeito no relacionamento com aqueles que discordam de suas atitudes. Até aqui sobreviveu.

As conquistas do governo Bolsonaro

Você poderia dizer: "Ah, e o fato de ter criado 1 milhão de empregos, derrubado a taxa de juros para o menor patamar da história, segurado a inflação abaixo da meta, alavancado o PIB, influenciado para que a Bolsa batesse todos os recordes, diminuído a criminalidade em mais de 20%, aprovado a reforma da Previdência, agido para não ter nenhuma notícia de corrupção em seu governo e ter montado um ministério de primeira linha sem o toma-lá-dá-cá?"

Essas conquistas merecem realmente todos os elogios. Tomara que continue nesse rumo. É do que mais o país precisa para se desenvolver e encontrar o bem-estar social. Com um pouco de disciplina e boa vontade, Bolsonaro poderia também aperfeiçoar o seu comportamento e a maneira de se expressar. O país seria, então, mais bem representado.

Superdicas da semana

- Só a prática leva ao aperfeiçoamento
- Ninguém aprende a falar em público se não praticar muito
- Quanto mais elevada a posição hierárquica, melhor deve ser a comunicação
- As conquistas materiais poderão ser ofuscadas por um comportamento ruim

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito