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Bolsonaro "queima navios" na relação com Maia; corajoso ou irresponsável?

29.mai.2019 - O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia - Marcelo Camargo/Agência Brasil
29.mai.2019 - O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

22/04/2020 13h10

Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar.
Sun Tzu

Saber o momento certo de falar e a hora adequada para calar. Medir a intensidade do ataque verbal e avaliar a postura a ser adotada no instante de refutar. Ter a consciência de que só pode falar bem quem souber pensar bem. Todos esses pontos estão intimamente relacionados com as técnicas de uma comunicação habilidosa e eficiente. Vamos ver na prática como funciona.

Você já deve ter ouvido falar em "queimar navios". Há muitas histórias que explicam a origem dessa expressão. Uma delas diz que foi de Júlio César, ao visitar Alexandria no ano de 48 a. C. Depois foi a vez do "copião" Francisco Pizarro, ao desembarcar na América do Sul, em 1526. Alguns atribuem essa proeza ao também explorador espanhol Hernán Cortez. Em todos os casos, esses personagens botaram fogo nas embarcações por duas razões claras: primeiro, para não terem condições de se arrepender e voltar, segundo, e por consequência, para não ficarem impedidos de alcançar seus objetivos. Isto é, ou vai, ou vai.

Guardadas as devidíssimas proporções, foi mais ou menos o que Bolsonaro fez na última quinta (16), ao declarar guerra contra Rodrigo Maia, na entrevista para a CNN. Os dois já estavam se estapeando há um bom tempo. Não havia mais condições de diálogo entre eles. À medida que se aproximam as eleições presidenciais de 2022, cada político procura agir de acordo com seus interesses.

Bolsonaro e Maia estão de olho em 2022

Bolsonaro já declarou abertamente que é candidato à reeleição, embora sempre ressalte que não está preocupado em se reeleger. Rodrigo Maia, por sua vez, pertence a um partido político que está doidinho para colocar um de seus membros, ou alguém que seja simpático à sua causa, na cadeira do presidente.

Para que cada um atinja seus objetivos, há um caminho distinto a ser percorrido. Bolsonaro só poderá pretender continuar como presidente se o país for bem. O PIB precisa crescer, o desemprego, despencar, a taxa de juros e a inflação devem continuar baixas, enfim, o Brasil precisa bombar. Sem contar que agora tem a obrigação de se sair vitorioso no combate ao coronavírus.

Para Rodrigo Maia, ao contrário, ainda que o discurso pareça ser o da busca da prosperidade, na verdade só há uma forma de tomar o poder —torcer para que o governo atual fracasse, e o país vá mal. Os eleitores só pensarão em trocar de presidente se a situação do Brasil piorar.

Por isso, o presidente da Câmara toma algumas providências legais, mas que lhe convém. Segura os projetos na gaveta até que percam os prazos de validade, critica abertamente as ações do presidente e a de seus ministros e navega numa direção diametralmente oposta, deixando claro que os interesses são irreconciliáveis.

Maia finge se preocupar com o bem-estar do país, mas coloca obstáculo em todas as ações do governo. Quando não há jeito de continuar atrapalhando, dá andamento ao projeto, mas tenta tomar para si os louros da vitória, como aconteceu, por exemplo, com a aprovação da reforma da Previdência.

Não só elogiou o próprio trabalho e o dos outros deputados como aproveitou para criticar as ações do presidente chamando-o de omisso. Dessa forma, tentou ofuscar a paternidade do projeto que exigiu enorme esforço, especialmente do Ministério da Economia.

Maia x Bolsonaro

A condição de Maia é muito mais confortável que a de Bolsonaro. Torce para não dar certo, mas se a situação for bem, ele canta vitória como se fosse o responsável pela conquista. E ainda por cima diz que o país vai bem apesar do presidente Bolsonaro. Para essas ações conta com os políticos revoltados por não fazerem parte do governo e com os governadores que também estão de olho na Presidência.

A análise da linha do tempo nos diz que, até aqui, Bolsonaro reagia com cautela. Afinal, não poderia estabelecer confronto com aquele que detém o poder para barrar as suas iniciativas. De ambos os lados, as jogadas eram (e são) executadas como se fossem parte de um intrincado jogo de xadrez. Um passo em falso poderá ser fatal para as pretensões de cada um dos contendores.

Há pouco tempo, também em entrevista para a CNN, Bolsonaro já demonstrava que a paciência estava chegando no limite. Em certo momento, desafiou Maia e Alcolumbre para que fossem às ruas e testassem a sua popularidade. Entretanto, puxou o freio de mão e disse que estava disposto a conversar com eles. Agora, porém, a história ganhou cores mais contundentes.

Bolsonaro decidiu que era chegada a hora de fazer seu lance mais arriscado. Declarou de forma ostensiva que ele e Maia estão em lados diferentes e antagônicos. Deve ter medido muito bem os prós e contras dessa iniciativa e concluído que esse era o momento apropriado. Uma decisão difícil, pois não admite retorno. Queimou os navios.

Bolsonaro classificou como "péssima" a atuação do presidente da Câmara. E afirmou: "parece que a intenção é me tirar do governo". Disse ainda: "Eu lamento a posição do Rodrigo Maia, que resolveu assumir o papel do Executivo. Eu respeito ele, mas ele tem que me respeitar. Lamento a postura que ele vem tomando. Mas o sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal".

Uma porta aberta

Para ter uma chance de reconciliação lá na frente, Bolsonaro deixou uma porta aberta, dizendo que não tinha nada contra o Congresso ou a Câmara dos Deputados, mas que criticava, sim, o presidente da Câmara. Maia, por seu lado, com sua larga experiência, não poderia reagir de maneira intempestiva. Seu melhor figurino seria o de se apresentar como vítima e de forma serena.

Em suas publicações, ele disse: "Não temos tempo a perder com retóricas golpistas. É urgente continuar ajudando os mais pobres, os que estão doentes, esperando tratamento em UTIs e trabalhar para manter os empregos. Não há caminho fora da democracia".

Essa deveria mesmo ser a estratégia —passar uma mensagem que todas as pessoas tivessem de concordar. Quem discorda que os doentes precisam ser ajudados? Ou que é preciso trabalhar para manter os empregos? Só que não colou. Nos dois dias que se seguiram ao embate, os ataques a Rodrigo Maia foram intensos, e especialmente o #foramaia ficou em primeiro lugar nas redes sociais.

Como os navios já estavam queimados, Bolsonaro não precisou mais fazer de conta que se dá bem com Maia, e continuou com seus ataques. Fez discurso inflamado diante da população que o estava ovacionando em Brasília, dizendo que era preciso dar um basta à velha política e à patifaria. E, para coroar, no domingo, repercutiu a fala de Roberto Jefferson, afirmando que Maia está com um golpe em andamento para tirá-lo da Presidência.

Fazia tempo que não se via uma encruzilhada política como essa. Dois pesos pesados entrando no ringue sem saber qual será efetivamente a força do adversário. Vamos ver como cada um moverá suas peças daqui para frente.

Superdicas da semana

  • Antes de atacar é preciso conhecer o poder de fogo do inimigo
  • Tanto quanto o poder de ataque é importante o momento de atacar
  • Para confrontar o adversário é preciso pesar os prós e contras
  • Nem sempre é possível prever todos os lances de uma contenda
  • Às vezes, só descobrimos a força do adversário durante a luta

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito