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Reinaldo Polito

Bolsonaro não está nem aí para os conselhos dos aliados

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

21/05/2020 12h21

A vantagem de brincar com fogo é que se aprende a não se queimar.
Oscar Wilde

Pergunte a dez pessoas quais são os maiores defeitos de Bolsonaro. É quase certo que nove delas citarão, entre outras falhas, a falta de traquejo com a comunicação. Muito provavelmente, dirão que ele é tosco, agressivo, inadequado e sem noção. Praticamente todos os dias ouço alguém dizendo que ele precisa mudar o jeito de falar. Eu mesmo já tive a oportunidade de citar essas questões aqui nesta coluna.

Há pouco tempo, Roberto Jefferson, que elogiava muito o desempenho do presidente, foi incitado pelo jornalista que o entrevistava a relatar os defeitos de Bolsonaro. Ele pensou um pouco e disse que um deles era a interferência dos filhos. Afirmou que ele agiria melhor sem a participação deles.

O outro estava na maneira de se expressar. Mencionou até um exemplo próprio, revelando que no início de sua carreira pecava pelo mesmo problema, que era o uso exagerado da ironia. Essa forma de se expressar permite que os opositores peguem suas palavras ao pé da letra. Comentou ainda que o presidente, em diversas situações, brinca de maneira inoportuna.

Com alguns assuntos não se brinca

Desde muito cedo, aprendi que era preciso evitar brincadeiras com religião, mulheres (porque, por ser homem, meus pais tinham essa preocupação comigo), preferências sexuais, entre outras. Levei essas recomendações a sério, mas foi preciso colocar o dedo na tomada para confirmar que ali dava choque. Alguns casos foram marcantes. Vou relatar um deles, já que mencionei religião.

Em nossos cursos, o professor Jairo Del Santo Jorge, que leciona em nossa escola há mais de 30 anos, faz belíssimas interpretações ora no papel de um mafioso, ora na figura de um padre, para mostrar a partir dessas personagens como se deve aplicar as regras para fazer uma homenagem. Como o Jairo é um excelente artista, seu desempenho em qualquer das duas situações arranca gargalhadas dos alunos, que chegam a aplaudi-lo de pé. É sucesso garantido.

Num determinado dia, em Brasília, não foi. Quando ele começou a interpretar o padre, senti um silêncio pesado na sala. As brincadeiras que sempre davam resultados excepcionais não provocavam o mais leve sorriso nos ouvintes, e no fim o Jairo não foi vaiado, mas ninguém o aplaudiu. Na sala ao lado, enquanto ele se descaracterizava de sua personagem, me perguntava, incrédulo: "O que foi que mordeu essa gente? Parece até que viram um extraterrestre!".

Sabe o que havia ocorrido? Naquela semana, o bispo de uma igreja chutara a imagem de Nossa Senhora Aparecida, e os católicos estavam indignados e furiosos. E, para complicar ainda mais, um dos alunos era ex-padre e fez uma avaliação muito negativa do exemplo que usamos. O problema todo surgiu em virtude das circunstâncias, pois o Jairo cansou de receber cumprimentos de padres que frequentaram nossa escola, impressionados com seu desempenho. Naquele dia a brincadeira, pelo contexto, foi inconveniente.

Há uma linha que não pode ser ultrapassada

Bolsonaro, de vez em quando, ultrapassa a linha amarela e faz brincadeiras que um chefe de estado não deveria fazer. Por exemplo, antes mesmo de se eleger, quando brincou com o nascimento da filha. Disse que tinha quatro filhos, aí deu uma "fraquejada" e nasceu uma menina. Foi uma brincadeira, mas pegou mal. Por essas e outras os adversários vivem dizendo que ele é misógino.

Cerca de dez dias depois que Jefferson fez esse comentário, como espécie de conselho a Bolsonaro, eis que o presidente brinca com um assunto que merecia um pouco mais de compostura. Ao falar em uma entrevista sobre o uso da cloroquina, ironizou: quem é de direita toma Cloroquina, e quem é de esquerda toma Tubaína. Ele achou bastante graça na brincadeira que fez, tanto que repetiu a frase duas vezes.

Se tivesse ouvido os conselhos que lhe são dados, talvez passasse ao largo dessa frase inconveniente, mas, pelo jeito, não está nem aí para as recomendações que recebe. Como as pessoas aprendem pelo amor ou pela dor, parece que o presidente precisará colocar mais algumas vezes o dedo na tomada até descobrir que ali dá choque.

Superdicas da semana

  • Brincadeiras inconvenientes podem prejudicar a imagem
  • Brincadeiras que desrespeitam o bom senso só atrapalham os relacionamentos
  • No caso de dúvida se deve ou não brincar, é melhor não arriscar: não brinque
  • A liturgia do cargo exige comportamentos à altura da função

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL