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Reinaldo Polito

Congresso parece uma Torre de Babel: todo mundo fala, e ninguém se entende

12.mai.2021- O ex-secretário especial de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, ao lado do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
12.mai.2021- O ex-secretário especial de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, ao lado do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

18/05/2021 04h00

O interesse fala tudo o que é língua e representa tudo o que é personagem, mesmo a do desinteressado.
Rochefoucauld

Fogo no parquinho! Para quem gosta de um bom bate-boca, as sessões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal se transformaram em ótimo programa. É só preparar a pipoca, esticar as pernas e esperar, pois, em pouco tempo tem início o show. Suas excelências falam ao mesmo tempo com o objetivo de tumultuar as discussões.

Infelizmente é assim. O ideal seria que os temas fossem discutidos, com veemência sim, mas de forma civilizada. A sociedade ganharia mais se cada um pudesse expor seu ponto de vista sem ser interrompido pelos colegas, que agem assim apenas para não permitir que o raciocínio do oponente tenha começo, meio e fim.

Nesse cenário não podemos ter ilusões. Os adversários não querem ouvir a parte contrária, mas sim tumultuar, interromper e atrapalhar. Cada um sai com suas ideias, já pré-concebidas, sem nenhuma intenção de ponderar sobre o que poderiam ter ouvido. É um verdadeiro circo dos horrores. E pensar que o destino do país é decidido no meio dessa balburdia!

Fora desse picadeiro a situação é mais amena, mas em termos de atenção das pessoas não chega a ser muito diferente. Um dos estudos mais recentes publicado pela revista científica Nature Communications aponta que por causa das mídias sociais passou a existir um crescente número de tópicos nas postagens, e em contrapartida com a mesma intensidade um maior anseio por novidade e uma diminuição no interesse pelo conteúdo.

Não é por outro motivo também que tantas pessoas têm procurado os meus treinamentos reclamando de que não conseguem mais manter a atenção dos ouvintes. A maioria se mostra impotente diante dos desafios impostos pela tecnologia e a forma esquiva como a audiência passou a se comportar.

É o professor que não consegue envolver os alunos, especialmente na comunicação a distância. O executivo que tem dificuldade para conquistar o interesse dos profissionais durante as reuniões, e, também nesse caso, principalmente nos encontros online. Os palestrantes, que sofrem cada vez mais para segurar atentas as grandes plateias até o final de suas apresentações, e, como não poderia ser diferente, agora, quando precisam fazer exposições remotas.

Os tempos são outros

Realmente os tempos estão mudados. Mas se esse afastamento ocorre de maneira quase generalizada, quem precisa se adaptar é o orador, não o público. A velha máxima continua valendo: não existe ouvinte desinteressado, mas sim orador desinteressante. Temos que nos conscientizar de que as pessoas estão ali para nos ouvir. Na maior parte das vezes, por iniciativa própria. Quem fala tem todos os recursos de que necessita para conquistar o público.

Os obstáculos que precisam ser enfrentados e superados por quem fala em público passam a ser cada vez mais numerosos. Não basta, entretanto, colocar apenas o peso sobre as costas do orador, mas sim mostrar quais são os recursos que podem ser utilizados para instigar e manter a atenção das plateias.

Quatro recursos fundamentais

São quatro recursos que podem ser utilizados para manter o interesse dos ouvintes desde o início até a conclusão da fala: mostrar quais são os benefícios, ressaltar a atualidade, criar expectativas e dar espetáculo. O orador pode lançar mão deles isoladamente, ou, o que é mais comum, simultaneamente. Vamos analisar cada um deles:

Mostre os benefícios

Temos de partir de uma verdade insofismável: nós só nos motivaremos a acompanhar uma mensagem se sentirmos que teremos algum tipo de vantagem. Por isso, desde as primeiras palavras, mostre aos ouvintes quais os benefícios que eles terão com a sua apresentação.

Diga se eles vão ganhar dinheiro, ter segurança, melhorar as perspectivas profissionais, ampliar o prestígio social, angariar fama, conquistar poder, obter conhecimento, ter respeito, consideração, reconhecimento. Enfim exponha de maneira clara o que terão a ganhar ouvindo suas palavras.

Seja atual

Quanto mais próximo no tempo e no espaço estiver um tema, mais interesse provocará nos ouvintes. Por isso, analise sempre a seguinte questão: que tipo de adaptação eu posso fazer para que o assunto vá ao encontro da realidade das pessoas que vão me ouvir.

Se falar de aplicações financeiras, encontre uma forma de ligar o tema ao campo de atuação do público. Se falar em economia, dê um jeito de abordar a matéria de tal forma que os ouvintes sintam que a sua situação sofrerá consequências com o resultado que está sendo apresentado.

Crie expectativas

Este é outro princípio que sempre precisaremos ter em mente: os ouvintes só acompanharão um discurso com interesse se tiverem suas expectativas alimentadas e realimentadas o tempo todo. Assim, se for passar alguma informação relevante mais à frente na sua apresentação, avise os ouvintes que logo irá tratar dessa importante mensagem. Haja assim em todos os momentos.

Faça espetáculo

O conteúdo apenas não é suficiente motivar os ouvintes a acompanhar o desenvolvimento do raciocínio. É preciso que a mensagem seja acompanhada de uma boa dose de espetáculo. Manter o semblante comunicativo, usar gestos abrangentes (sem exagero), alternar o volume da voz e a velocidade da fala, produzir pausas expressivas, contar histórias curiosas e interessantes no meio da apresentação, são alguns recursos que tornam as informações atraentes.

Esses recursos simples talvez não resolvam as contendas que se tornam cada vez mais descontroladas no Congresso, mas fora desse ringue, se bem utilizados, conseguem manter a atenção dos ouvintes. Todas essas sugestões podem ser ensaiadas durante a fase de treinamento.

Se fizer a apresentação mais de uma vez, dê um jeito de gravar a plateia. Depois analise em que momentos os ouvintes se distraem ou deixam de prestar atenção. Nessas ocasiões você precisará incluir uma piada, fazer uma brincadeira, movimentar-se na sala, interagir com a plateia. Seguindo essas orientações você ampliará suas chances de sucesso.

Superdicas da semana

Os ouvintes terão interesse se sentirem que irão obter vantagem.

É preciso criar expectativa no público o tempo todo.

O entretenimento ajuda a plateia a se envolver com a mensagem.

Se o orador souber agir, motivará os ouvintes a prestar atenção.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante.

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