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Finanças pessoais

Aposentado pode pegar até 9 consignados ao mesmo tempo -e isso é perigoso

Dolgachov/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Dolgachov/Getty Images/iStockphoto

Fernanda Santos

Colaboração para o UOL, em Florianópolis (SC)

06/11/2018 04h00

A aposentada Suely Leandro, 62, tomou um empréstimo consignado para ajudar uma filha. Depois, precisou de dinheiro para consertar seu carro e fazer uma viagem, e buscou mais crédito. Hoje, 30% da aposentadoria vai automaticamente para as parcelas de quatro consignados.

"O salário que eu ganho é para pagar consignado. Isso mexeu com minha estrutura. Eu só tenho a renda da aposentadoria, como vou fazer?", disse ao UOL.

Aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) podem ter até nove empréstimos consignados ao mesmo tempo, em instituições diferentes. Mas é preciso muito cuidado para lidar com todos esses contratos, ou pode acabar com o nome sujo.

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Segundo o Banco Central, de 2017 até julho de 2018, foram concedidos aos beneficiários do INSS mais de R$ 106 milhões em novos empréstimos consignados. Porém, é cada vez mais difícil para os idosos fecharem o mês no azul: em setembro, 5,4 milhões de pessoas com idade entre 65 e 84 anos estavam com o nome sujo, uma alta de 10% em relação a 2017, segundo dados do SPC Brasil.

Consignado tem juros mais baixos

Como as parcelas são descontadas direto do pagamento, o risco de calote aos bancos é menor. Por isso, o consignado costuma ter juros mais baixos que outras modalidades de empréstimo. Em setembro, os juros médios do consignado eram de 24,4% ao ano, enquanto os do cheque especial eram de 301,4% ao ano e do empréstimo pessoal, de cerca de 122,2% ao ano, segundo dados do Banco Central.

Além disso, o empréstimo consignado pode ser parcelado em até 72 vezes (seis anos).

Cada beneficiário do INSS pode tomar até nove empréstimos ao mesmo tempo, desde que, no total, comprometa no máximo 35% de sua renda (30% com empréstimo pessoal e 5% com o cartão de crédito consignado, que também é descontado direto da conta bancária).

O UOL ouviu especialistas e listou cuidados a serem tomados para não se enrolar em dívidas. Veja abaixo.

Organize as finanças e corte gastos

Muitas vezes, a necessidade do empréstimo não vem de um problema pontual, mas, sim, de hábitos de consumo que fazem o dinheiro faltar todo mês, afirmou a educadora financeira Cintia Senna, da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin).

"O valor do consignado é descontado da aposentadoria, que ficará reduzida todo mês. Aquele orçamento, que já não estava sendo suficiente, vai ficar menor ainda por um bom tempo", afirmou.

Com a aposentadoria menor e os gastos acima do orçamento, será questão de tempo para o dinheiro faltar novamente, e o aposentado buscar mais empréstimos. Portanto, antes de pegar um consignado, é preciso olhar para as despesas e ver onde dá para cortar.

Saiba quanto pode pagar por mês

Após colocar as contas no papel, se o aposentado concluir que precisa mesmo daquele dinheiro, será hora de pensar quanto poderá comprometer a cada mês com as parcelas.

"Esse aposentado tem esse empréstimo, mas pode ter também cartão de crédito, cheque especial, valores que comprometem muito mais que os 35% do consignado", disse Cintia. Tudo isso precisa entrar na conta.

Pesquise e compare juros

A etapa seguinte é pesquisar as melhores condições de empréstimo disponíveis no mercado e que atendam suas necessidades.

Segundo o INSS, os juros do consignado não podem passar de 2,08% ao mês, mas nem sempre isso acontece na prática. "Tudo que for acima de 2,08% ao mês já começa a ser taxa alta. Fizemos uma cooperativa exatamente para combater juros abusivos", declarou Milton Cavalo, presidente da cooperativa de crédito Sicoob Coopernapi.

Considere outros tipos de crédito

Pesquise também outras modalidades de crédito, e não apenas o consignado, segundo Cintia, da Abefin. Não são apenas bancos que fornecem empréstimos, mas também outras instituições, como cooperativas e fintechs (startups do setor financeiro).

Simule o valor total da dívida

Ao tomar um empréstimo, boa parte dos aposentados presta atenção apenas no valor da parcela e não checa quanto pagará de juros ao longo dos anos, declarou Cintia.

Para ficar no limite de 35% da renda, muitas vezes a pessoa pega um empréstimo longo, de até seis anos. Com os juros médios de 25% ao ano, a dívida inicial vai mais que dobrar.

Além disso, é possível que haja outras taxas embutidas na parcela, como taxa de análise de crédito, seguro ou outros produtos vinculados ao empréstimo que farão a dívida crescer ainda mais.

Para não se enganar, é preciso olhar lá na frente e simular o valor total que será pago ao final do empréstimo. No caso das taxas embutidas, é aconselhável negociar com o banco.

Se já tem consignado, considere transferir de banco

As taxas do consignado podem oscilar com as mudanças na taxa básica de juros (Selic). Por isso, quem tem empréstimos antigos pode estar pagando juros acima da média do mercado hoje, segundo Cavalo, da Sicoob Coopernapi.

Nesses casos, o indicado é conversar com o banco para tentar reduzir os juros. Se o banco não aceitar, o aposentado pode buscar instituições com condições mais atrativas e fazer a portabilidade do empréstimo, ou seja, transferir a dívida para outro banco.

Com as taxas mais vantajosas, a dívida cai. Nesse caso, o aposentado pode reduzir o número de parcelas devidas ou reduzir o valor de cada parcela.

Resista à tentação

As instituições financeiras costumam ser insistentes ao oferecer crédito. Porém, ainda que a proposta pareça interessante, é preciso não agir por impulso e fazer contas antes de aceitar o empréstimo.

Suely, a aposentada que tem quatro empréstimos consignados, disse que todos os dias recebe duas ou três ligações de bancos oferecendo crédito. "Os bancos são bichos danados. Oferecem o consignado porque não tem como você falar que não vai pagar", declarou.

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