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Risco de calote dos EUA, país mais rico do mundo, afeta investidor aqui

O presidente dos EUA, Joe Biden, vê impasse no congresso sobre elevação do teto da dívida do governo - Pool/Getty Images via AFP
O presidente dos EUA, Joe Biden, vê impasse no congresso sobre elevação do teto da dívida do governo Imagem: Pool/Getty Images via AFP
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Juliana Portugal

Colaboração para o UOL, em São Paulo

06/10/2021 04h00

O cenário político e econômico dos Estados Unidos vem provocando muita turbulência nos mercados internacionais. Nesta semana, o mundo está atento às notícias sobre a possibilidade de calote da dívida dos EUA, um evento que causaria "danos irreparáveis" para o mercado financeiro, segundo a secretária do Tesouro do país, Janet Yellen.

Como uma nação tão rica quanto os EUA poderia dar um calote? A explicação é a seguinte: o país possui um limite para se endividar estipulado em US$ 28,4 trilhões. É o chamado teto da dívida. O problema é que os gastos atuais do governo já estão bem perto deste limite, que deverá ser ultrapassado no dia 18 de outubro. Caso o congresso norte-americano não aprove o aumento do teto, o governo não conseguirá mais pagar seus credores, que incluem investidores de títulos públicos dos EUA. O que isso tem a ver com o Brasil e os investidores brasileiros? Leia abaixo.

Entenda o impasse

Não é a primeira vez que os EUA se aproximam do limite do teto de dívida. Em 2012 e 2013, o país enfrentou cenário parecido. Quando isso acontece, o congresso eleva ou mesmo suspende o teto para que o governo cumpra o pagamento de dívidas como juros dos títulos públicos aos investidores e aposentadorias.

Desta vez, contudo, há um impasse entre os dois partidos. Em setembro, a Câmara aprovou a suspensão do limite de endividamento do governo até 2022, mas no Senado os republicanos, que fazem oposição ao presidente democrata, Joe Biden, se recusam a votar a favor da suspensão do teto.

Na segunda (4), Biden chamou os republicanos de irresponsáveis e ainda disse que "nesse ponto, não posso garantir que os Estados Unidos vão evitar o calote".

Segundo Biden, essa resistência dos republicanos ocorre apenas para esconder "o aumento de despesas durante o governo de Donald Trump". Ele afirmou que a dívida cresceu quase US$ 8 trilhões, durante o governo do seu antecessor, "mais de um quarto da dívida total acumulada em mais de 200 anos".

Yellen, por sua vez, disse na terça (5) que o país enfrentará uma recessão se o teto da dívida não for elevado. Para que o pagamento das dívidas ocorra, o congresso precisa aprovar a suspensão ou elevação do teto até o dia 18 deste mês, segundo Yellen. Depois desta data, o Tesouro teria recursos limitados e teria de priorizar o que e quem pagaria primeiro.

"Com o aumento da divisão política, a proximidade do estouro do limite de gastos passou a ser usada como barganha para disputas entre os democratas e republicanos. Mas acredito que o desfecho deva ser o mesmo das situações anteriores, com a aprovação do aumento do limite", afirma Ian Caó, CIO da Gama Investimentos

O Senado deve votar nesta quarta (6) a suspensão do teto.

E se o teto de gastos não for elevado ou suspenso?

Segundo Alan Ghani, professor de economia do Insper, todos os pagamentos de dívidas e de toda a máquina pública dos EUA ficariam suspensos. O país teria de priorizar o que e quem pagaria com o dinheiro da reserva.

Caso não haja aprovação da suspensão ou elevação do teto, os EUA não conseguiriam pagar contas como benefícios, pagamentos a servidores públicos e militares, subsídios estaduais e locais, aposentadorias, além dos juros de seus títulos públicos.

Considerado um dos investimentos mais seguros do mundo, os títulos públicos dos EUA são como se fossem os títulos públicos do Tesouro Direto. Diferentemente daqui, porém, nos EUA os juros pagos aos investidores desses títulos são baixos. Segundo dados da empresa de pesquisa norte-americana Brookings Institution, o governo federal economizou em torno de US$ 700 bilhões em pagamento de juros ao longo de 10 anos.

Isso pode mudar porque, caso ocorra o calote, os juros oferecidos pelos papéis precisam subir muito para atrair investidores.

A agência de classificação de risco Fitch afirmou no início do mês que a classificação de crédito soberano "AAA" dos Estados Unidos pode ser pressionada se o congresso não resolver esse impasse. Ou seja, o país pode perder o título de bom pagador, o que provocaria ainda mais fuga de investidores e aumentaria ainda mais o preço dos principais títulos públicos norte-americanos.

O resultado é que os mercados globais seriam imediatamente impactados, segundo especialistas.

Onde o Brasil entra nessa história?

Por ser uma potência econômica, os EUA afetam todo o globo. Se uma crise ocorre por lá, ela vai chegar ao resto do mundo. Isso quer dizer que os seus investimentos aqui no Brasil também sofreriam as consequências de um possível calote.

Segundo Caó, da Gama Investimentos, um aumento no preço dos principais títulos do país afetaria os mercados de renda fixa e de ações do mundo todo, incluindo o Brasil. "Poderia haver situação parecida com a grande crise de 2008", afirma.

O resultado seria uma forte queda no preço das ações negociadas na Bolsa brasileira, assim como um aumento considerável dos rendimentos dos títulos públicos brasileiros, algo que já vem acontecendo por aqui.

Renda fixa se beneficiaria

A Selic, a taxa básica de juros da economia, subiu de 2% ao ano em março para os atuais 6,25% ao ano. O aumento reflete problemas internos, como a inflação, crise de energia e cenário político conturbado. Problemas externos, como um calote nos EUA, poderiam forçar ainda mais aumentos.

Com isso, os títulos públicos negociados pelo programa Tesouro Direto e aplicações populares de renda fixa, como o CDB (Certificado de Depósito Bancário), ficariam cada vez mais atrativos.

"Os investimentos de renda fixa são mais procurados, especialmente aqueles que que estão atrelados à inflação e ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário). Com a taxa de juros atual, se o investidor comprar um CDB com rendimento de 110% ou 120% do CDI, ele ganhará praticamente o mesmo rendimento da Bolsa, porém, correndo um risco muito menor", afirma Gisele Brito, chefe de Operações da Amur Capital.

Já a Bolsa sofreria mais quedas

Segundo ela, o possível calote afetaria negativamente a Bolsa brasileira, que já vem sofrendo com outros assuntos ligados à economia dos EUA.

Além do teto da dívida, a possibilidade de retirada de estímulos da economia norte-americana, anunciada na última semana pelo presidente do Fed, o banco central norte-americano, Jerome Powell, também impactou os preços das ações no Brasil.

Segundo especialistas, o investidor de ações deve ter cautela no momento, e focar em empresas mais sólidas, boas pagadoras de dividendos, ou que tenham receita dolarizada.

Gisele Brito explica que as empresas que possuem receitas em dólar são aquelas que exportam parte de seus produtos e, por isso, recebem o pagamento em moeda estrangeira.

*Com informações da Ansa e Reuters

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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