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Personagem de Round 6 'quebrou' com mercado futuro; entenda os riscos

Cho Sang-woo deu um prejuízo R$ 3 milhões a clientes após investir no mercado futuro  - Reprodução
Cho Sang-woo deu um prejuízo R$ 3 milhões a clientes após investir no mercado futuro Imagem: Reprodução
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Vinícius Silva

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/10/2021 04h00

A série sul-coreana "Round 6", um dos maiores sucessos da história da Netflix, caiu no gosto popular ao mostrar um jogo mortal em que pessoas com problemas financeiros disputam um prêmio milionário. Dentre eles, o personagem Cho Sang-woo se vê obrigado a entrar no jogo após acumular uma dívida de 650 milhões de wones, ou R$ 3 milhões, em apostas malsucedidas no mercado futuro.

Mas, afinal, o que é esse mercado? Por que as pessoas "quebram" tão facilmente nesse tipo de investimento? Vale a pena o risco? Veja abaixo o que disseram os especialistas ouvidos pelo UOL.

O que é o mercado futuro?

O mercado futuro é onde o investidor pode realizar a compra e venda de ativos com datas de liquidação no futuro. Ou seja, vendedores e compradores negociam condições e preços em contrato pelos quais um produto será vendido no futuro, respeitando certos padrões negociados em Bolsas.

Por meio dos contratos futuros, tanto ativos tradicionais de Bolsa, como ações de empresas e moedas, quanto produtos comercializados fora dela, caso de commodities como boi, soja e etanol, têm seus preços predeterminados para, como o nome sugere, uma data futura.

De acordo com Alexandre Espírito Santo, professor do Ibmec-RJ e economista-chefe da Órama, esse chamado mercado futuro existe para proteger uma posição que um investidor ou agente econômico possui.

"É como se fosse uma proteção, uma espécie de seguro que o investidor procura fazer para reduzir sua exposição ao risco, especialmente naqueles ativos que possuem grandes oscilações de preço", diz.

Caso um produtor de café acredite que os preços do produto irão cair daqui um ano, na época da colheita, por exemplo, ele poderá vender hoje os contratos do produto por um preço predeterminado para se proteger de perdas no futuro.

Segundo a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regula o mercado, no mercado futuro esses compromissos são ajustados diariamente. Todos os dias são verificadas as alterações de preços dos contratos para apuração das perdas de um lado e dos ganhos do outro, realizando a liquidação das diferenças do dia.

Pessoa física também pode participar desse mercado

Para que o mercado futuro exista, é necessário haver a outra ponta. Portanto, esse instrumento está à disposição de quem busca especular no mercado atrás de ganhos rápidos apenas com as variações de preços dos ativos, mesmo sem detê-los fisicamente.

Dessa forma, se o investidor entende que a tendência é de valorização do produto, ele vai se posicionar como comprador. Se entender que o produto deve se desvalorizar, entra na ponta vendedora, podendo, da mesma forma, lucrar por ter assegurado agora um preço de venda maior do que a venda no futuro.

"É papel do especulador tentar prever movimentos e ganhar na contraparte, na ponta oposta. Basicamente, há uma negociação em uma data futura de um ativo, que pode ser uma ação, ou um índice, como o Ibovespa, por exemplo, além de contratos de commodities", diz Virginia Prestes, professora de finanças da FAAP.

Esses contratos são muito voláteis e podem gerar grandes bonificações ao especulador. Mas o contrário também é verdadeiro, e quem aposta nesse tipo de mercado também pode amargar grandes prejuízos, como o personagem de Round 6.

De acordo com a especialista, a forma mais comum de investidores entrarem nesse mercado futuro é operando minicontratos de índice ou de dólar. O mini-índice é um contrato que oscila em função da pontuação do Índice Bovespa Futuro. Ou seja, é uma aposta na alta ou na queda do Ibovespa. O mini-dólar, por sua vez, está vinculado ao preço da moeda norte-americana.

Por que há muitos riscos no mercado futuro?

Assim como no caso do personagem da série Round 6, muita gente passa apertado no mercado futuro. De acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, o problema está no fato de os investidores entrarem no mercado sem conhecer a fundo os termos e a possibilidade de alavancagem, ou seja, de operar com recursos emprestados e que vão além do que ele tem na conta da corretora.

"Nesse mercado é comum a alavancagem [endividamento] ser muito, muito elevada. Como o investidor pode operar valores acima de sua capacidade, se eventualmente o fizer, e der errado, ele poderá ser chamado a cobrir prejuízos que pode não ter como honrar. Por isso que muitas corretoras criaram, acertadamente, limites para que os investidores operem nesses mercados", afirmou Alexandre Espírito Santo.

Nesses casos, por exemplo, o investidor consegue acessar contratos que valem dez vezes mais do que os bens dados em garantia.

Dessa forma, há a possibilidade de lucros extraordinários, mas também de prejuízos pesadíssimos, já que, dada a desproporção em relação às garantias, variações mesmo pequenas nos preços dos ativos se traduzem em mudanças abruptas nos resultados da operação.

Para facilitar as contas, vamos supor que a cotação do dólar hoje esteja em R$ 5. A moeda tem oscilado, mas para você é interessante que a cotação continue em R$ 5, daqui a um mês.

Para garantir isso, você emite um minicontrato de dólar no ambiente de mercado futuro da Bolsa, considerando o dólar a R$ 5.

O valor mínimo do contrato de dólar é US$ 10 mil multiplicado pelo valor da cotação em que você aposta. Neste exemplo, você investiria, então, R$ 50 mil.

Outra regra deste mercado é que cada ponto da cotação equivale a R$ 10. Ou seja: R$ 5,00 seriam equivalentes a 5.000 pontos.

Se daqui a um mês, quando o contrato vencer, a cotação subir, você recebe o valor que investiu, os R$ 50 mil, mais a diferença.

Agora, se a cotação cair para R$ 4,90, por exemplo, você paga R$ 1.000 (100 pontos da diferença entre R$ 5,00 e R$ 4,90 vezes R$ 10).

Como evitar o endividamento nesse mercado?

Para Virginia Prestes, com a possibilidade de alavancagem e a chamada diária para o ajuste dos preços, é necessário que o investidor controle o risco e entenda que não há atalhos para ficar rico rápido no mercado de capitais.

"É necessário ter um controle de risco. Se o investidor opera R$ 20 mil, pense em colocar o limite de risco para perder até R$ 2 mil por vez, por exemplo", diz.

"Não pode ter ânsia de ficar rico do dia para a noite. Então, a dica é fazer operações pequenas porque o ganhador no mercado financeiro é o ganhador de longo prazo. É operar pequeno para operar com consistência e ter um ganho lá na frente", afirma.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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