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Reinaldo Polito


Você vai morrer

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

28/05/2019 04h00

Para arrebatar uma plateia, é preciso que ela veja vida, e não algo morno
Laurence Olivier

Nos anos 1970 havia um serviço muito curioso. Você fazia uma ligação telefônica e era atendido por uma gravação de um homem falando com voz grave, forte e quase aterrorizante que dizia: "Você vai morrer". Havia aí dois componentes instigantes: o primeiro era o aviso de que o ouvinte iria morrer, que chegava a amedrontar; o segundo era o fato de ser uma mensagem gravada atendendo a uma ligação telefônica, o que não era comum naquela época.

Depois de uma breve pausa, a gravação continuava com explicações a respeito de qualidade de vida. Com texto muito bem produzido, orientava que uma pessoa, se não fizesse exercícios físicos nem se alimentasse com produtos saudáveis, morreria mais cedo.

Para encerrar, eram feitas reflexões a respeito de temas bíblicos. Ponderava-se ainda que, ao obedecer às recomendações, o ouvinte viveria mais e de maneira bastante saudável, mas que, no final, como todo mundo, iria morrer. O objetivo derradeiro enfim se revelava --já que a morte era inexorável, a pessoa deveria adotar a religião proposta por eles para garantir sua entrada no céu.

O mais surpreendente dessa história era a quantidade de pessoas que me diziam ter ouvido a gravação até as últimas informações. Essa frase inicial "você vai morrer" provocava grande impacto, e quem a ouvia ficava tentado a acompanhar a mensagem até o seu término. Hoje, com o fato de quase todas as mensagens serem gravadas, essa estratégia talvez não fizesse tanto sucesso, mas naquela época funcionava.

A frase de impacto conquista a atenção

A frase de impacto, entretanto, continua sendo um dos recursos mais eficientes para conquistar a atenção dos ouvintes. Um dos maiores pregadores da nossa história recente foi o reverendo Borges. Ele dirigiu o Mackenzie por muitos anos e pregava com brilhantismo na Igreja Presbiteriana no Jardim das Oliveiras, em São Paulo.

Em uma de suas palestras, ele disse: "Começo os meus sermões sempre com uma frase de impacto, pois assim os fiéis terão a sensação de que algo importante irá ocorrer na minha pregação". Portanto, entre os diversos recursos de que dispomos para conquistar a atenção dos ouvintes, a frase de impacto é um dos mais eficientes.

Essa frase impactante associada à demonstração clara das vantagens que os ouvintes terão com a mensagem é uma maneira muito exitosa de se iniciar uma apresentação. Os outros recursos de que podemos lançar mão para conquistar a atenção dos ouvintes logo no início são: um fato bem-humorado, uma história interessante e uma reflexão.

Cada situação irá exigir uma estratégia adequada. A frase de impacto deverá ser usada preferencialmente quando os ouvintes se mostrarem desinteressados, alheios, indiferentes. Ao receberem a informação contundente, poderão ampliar o nível de atenção. Por isso, a frase "você vai morrer" logo no início da gravação despertava tanto interesse.

Recursos para conquistar a atenção

Revelar de forma clara quais são os benefícios dos ouvintes é outro recurso que poderá ser usado em praticamente todas as circunstâncias. Temos de ter em conta que uma pessoa só se interessará em acompanhar a mensagem se perceber que irá obter algum tipo de vantagem, como, por exemplo, ganhar dinheiro, ter segurança, conquistar ou aumentar o prestígio social, ampliar as perspectivas profissionais, obter fama, angariar poder etc.

O fato bem-humorado é o aproveitamento de uma informação curiosa, intrigante ou inusitada que nasce no próprio ambiente da apresentação. A sugestão é que você chegue bastante atento ao local onde irá se apresentar. Se notar uma ocorrência que possa ser aproveitada, comporte-se como se tudo acontecesse por acaso, exagere aquela informação e a transforme num fato bem-humorado.

A vantagem é que, se a brincadeira não der muito certo, os riscos serão mínimos, já que a informação nasceu no próprio momento da fala, sem o compromisso de tornar o comentário efetivamente engraçado. É diferente, por exemplo, da piada. Se você contar uma piada no início, e as pessoas não rirem, talvez se sinta desconfortável na sequência da apresentação.

A reflexão tem a vantagem de interagir ainda mais com os ouvintes. Quando você levanta uma reflexão, enquanto os ouvintes buscam uma resposta àquela questão, será possível respondê-la com informações da mensagem que será abordada. O ouvinte receberá a informação como se fosse uma resposta às suas próprias indagações, e, por isso, se mostrará mais interessado pelo discurso.

A história interessante é sedutora. Enquanto você conta a história, os ouvintes acompanham a narrativa, normalmente com bastante interesse. Ao ligar a história com a mensagem, o público já estará atento, sem se dar conta de que foi levado ao conteúdo da exposição por esse recurso.

Cada circunstância exige um recurso adequado

A utilização de uma ou outra técnica dependerá sempre da interdependência que guarda com o restante da fala, do contexto da apresentação, da receptividade dos ouvintes e do conhecimento e domínio que você tenha da linha que decidiu adotar. De nada adianta, por exemplo, julgar que a história interessante seria o melhor meio de conquistar os ouvintes, se você não tiver uma boa história para contar.

Esses recursos poderão ser utilizados isoladamente ou associados. Desde que você se sinta confortável e consiga conquistar a atenção dos ouvintes já no início da apresentação, estará liberado para recorrer à estratégia que julgar mais conveniente, tendo em mente sempre que as informações que transmitir no início precisarão ter relação com o restante da fala.

Como a maioria das plateias normalmente se mostra mais ou menos indiferente à apresentação, tenha sempre à mão uma boa frase de impacto. Provavelmente você não poderá dizer que os ouvintes irão morrer, mas não será tão difícil informar que a empresa poderá quebrar, que talvez ocorram muitas demissões, que o bônus poderá ser cortado. Pode ter certeza de que essa espécie de manchete de jornal sensacionalista despertará o público.

Superdicas da semana:

  • Use uma frase de impacto para conquistar a atenção dos ouvintes
  • Lance mão de um fato bem-humorado para instigar a plateia
  • Conte uma história interessante para que o público fique interessado na mensagem
  • Mostre de forma clara quais os benefícios que as pessoas terão para que acompanhem com interesse a sequência da fala

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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