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Reinaldo Polito


Falar de forma agressiva, como Flávio Bolsonaro, pode gerar ódio e demissão

Marcos Oliveira/Agência Senado
Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

17/09/2019 04h00

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) protagonizou cena de agressividade que foi notícia em todos os órgãos de imprensa. Sua atitude, em conversa relatada pela senadora Selma Arruda (PSL-MT), caracteriza a "comunicação agressiva", um tipo de comunicação que pode intimidar e até provocar ódio nas pessoas.

Agressividade camuflada

Uma pessoa pode usar agressividade de maneira camuflada ou ostensiva. No primeiro caso, se vale de volume de voz baixo, fala com tom sereno e amistoso, e demonstra semblante afetuoso e conciliador. A mensagem, entretanto, é avassaladora. Deixa transparecer nas entrelinhas uma falsa indulgência, um certo menosprezo, sentido de crítica e até desconsideração.

É agressividade difícil de ser combatida, já que o agressor poderá, a qualquer momento, afirmar que a interpretação do interlocutor está equivocada, que jamais teve a intenção de agredi-lo.

A melhor forma de defesa, nesse caso, é fingir que não percebeu o ataque e comportar-se como se nada tivesse acontecido. O agressor talvez se perca ao notar que suas intenções não foram concretizadas.

Agressividade ostensiva

No caso da agressividade ostensiva, a intenção do agressor é prontamente revelada. De forma geral, quem agride de maneira ostensiva é impulsivo, assume uma postura ameaçadora, criticando e acusando, valendo-se de gritos e palavrões, e não dando chance de resposta a quem está sendo atacado.

A pessoa agredida, quase sempre, sente-se intimidada e impotente, o que acaba por provocar ressentimento, medo e até rancor. Parece ter sido esse tipo de agressão ocorrido no embate entre os senadores Flávio Bolsonaro e Selma Arruda.

'Vocês querem me foder!'

Segundo a senadora, Flávio Bolsonaro gritou com ela e proferiu a seguinte frase: "Vocês querem me foder! Vocês querem foder o governo!". Ela afirma que pediu a Flávio que a respeitasse e baixasse a bola e, como ele não baixou, desligou o telefone, pois não gosta que gritem com ela.

O senador Flávio Bolsonaro negou as acusações da senadora. Disse que "jamais gritaria ou trataria mal a senadora Selma". E completou: "Prefiro não comentar. Entendo o momento difícil que ela está passando". O momento difícil a que ele se refere parece ser o fato de a senadora ser acusada de utilização de caixa dois durante sua campanha.

Bem, é a palavra de um contra a do outro.

No caso da senadora Selma, se o fato ocorreu como descrito por ela, a comunicação agressiva não foi suficiente para intimidá-la. Afinal, quando era juíza, foi apelidada de "Moro de saias", tal a firmeza de suas decisões contra criminosos importantes, tanto na política quanto na vida empresarial. Não seria, portanto, uns gritos e alguns palavrões que poderiam levá-la às cordas. Tanto assim que já demonstrou intenção de sair do PSL.

Comportamento em extinção nas empresas

Tratar as pessoas aos gritos, proferindo palavrões, agindo com destempero, achando que assim os problemas serão resolvidos mais rapidamente é um grande equívoco. Na vida corporativa, ainda que sobrevivam alguns remanescentes que continuam com esse comportamento deplorável, são espécies em extinção.

Se um chefe age assim com o subordinado, com poucas chances de errar, haverá um processo por assédio moral. Sem contar que fica cada vez mais evidente que esse comportamento agressivo prejudica o desempenho dos profissionais e derruba a produtividade.

Portanto, se você, na vida corporativa, costuma subir nas tamancas para agredir, debochar ou menosprezar colegas e subordinados, saiba que, mesmo apresentando resultados excepcionais com o seu trabalho, corre o risco de ser demitido. As relações humanas se transformaram. Hoje se exige respeito, consideração e amabilidade com as pessoas.

Jovens chegam às empresas com outra mentalidade

A época da intolerância e da falta de gentileza está cada vez mais distante. Os jovens que chegam ao mercado de trabalho, de maneira geral, são mais irreverentes, criativos, inventivos, mas sabem a importância de respeitar a diversidade e os limites que os separam dos direitos daqueles com quem convivem.

Aprendem desde os primeiros momentos que, na vida profissional, são contratados pela competência ou expectativa de desenvolvimento profissional, mas que poderão ser demitidos pelo comportamento. Convivem com exemplos que pululam no dia a dia. Observam que profissionais brilhantes são demitidos porque não souberam como se comportar.

Diplomacia e respeito

O senador Flávio Bolsonaro, se é que agiu assim como relatado pela senadora Selma, não perderá o seu cargo pela forma como se comportou, mas, com certeza, ainda que seja filho do presidente —ou principalmente por isso— talvez comece a encontrar algumas portas mais difíceis de serem abertas. Ou melhor, nesse caso, de serem fechadas.

Quem se comporta com educação, diplomacia e respeito terá muito mais chances de resolver problemas, construirá uma reputação positiva e reduzirá os riscos de desviar os rumos da sua carreira. Um pouco de reflexão e cuidado poderá mostrar o caminho correto a ser seguido.

Superdicas da semana:

  • Em certas circunstâncias, o comportamento pode valer mais que a competência
  • Respeite o seu subordinado. Amanhã ele poderá ser o seu chefe
  • Trate os colegas e subordinados como gostaria de ser tratado
  • Aprenda com os erros dos outros. Os exemplos estão à nossa volta

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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