IPCA
0,1 Out.2019
Topo

Finanças pessoais


Juro negativo: na Europa e Japão, a pessoa paga para investir. Por quê?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Téo Takar

Do UOL, em São Paulo

01/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Investidores na Europa e no Japão convivem com taxas negativas há alguns anos.
  • Taxas muito baixas não são exatamente uma novidade no mundo. Elas ainda são reflexo da crise financeira de 2008.
  • Expectativa de que as taxas possam cair ainda mais tem levado investidores a procurar títulos com juros negativos.
  • Bolsa e títulos privados de longo prazo são alternativas para investidor conseguir ganhos maiores.
  • Mercado imobiliário também serve como proteção contra inflação, mas demanda está muito aquecida em alguns países.

Você está reclamando dos juros baixos na hora de investir em títulos públicos? Já pensou se, em vez de pagar juros, o governo cobrasse para guardar o seu dinheiro? Em alguns países, isso acontece de fato.

Enquanto os brasileiros ainda estão se adaptando a uma nova realidade na renda fixa, com a taxa básica (Selic) no menor valor da história, de 6% ao ano, investidores na Europa e no Japão convivem com taxas de juros negativas há alguns anos. No Japão, a taxa está em -0,1% ao ano. Na Suíça, é -0,75% ao ano.

"Na prática, é como se a pessoa tivesse que pagar para investir seu dinheiro em títulos públicos", afirmou Michael Viriato, professor do Insper.

O objetivo do juro negativo é evitar que o dinheiro fique parado nos bancos. "Como esses países estão crescendo em um ritmo muito lento, os governos querem forçar as pessoas a gastar o dinheiro em vez de deixar aplicado. É uma forma de tentar estimular a atividade econômica", disse Viriato.

Se um título europeu oferece, por exemplo, rendimento de -0,4% ao ano, então, a cada 100 euros aplicados, o investidor perde 40 centavos de euro por ano. Isso sem considerar os efeitos da inflação que, apesar de ser muito baixa nesses países, também faz o dinheiro perder valor.

Herança da crise de 2008

Taxas de juros próximas ou iguais a zero, ou mesmo negativas, não são exatamente uma novidade no mundo. O Japão já adotou juro zero no início dos anos 2000.

A situação atual é reflexo da crise financeira de 2008, que freou a atividade econômica global e forçou os principais bancos centrais —dos Estados Unidos, Europa e Japão— a reduzir drasticamente os juros básicos de suas economias para minimizar os efeitos da crise.

Os Estados Unidos superaram a crise e voltaram a mostrar crescimento, enquanto as economias do Japão e de vários países da Europa seguiram patinando nos últimos anos.

Agora, o início de uma guerra comercial entre os norte-americanos e a China acendeu o alerta para o risco de uma nova onda de recessão global.

Entenda a lógica de investir com taxas negativas

O que levaria um investidor a comprar um título público que rende uma taxa de juro negativa?

"Há duas razões. A primeira é porque o custo de simplesmente manter o dinheiro parado na conta-corrente é maior do que comprar um título com juro negativo. Os bancos na Europa cobram taxas de manutenção sobre contas paradas", disse o professor William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas).

"A segunda razão é a expectativa de que as taxas possam cair ainda mais. Se o juro cair, o preço do título sobe, e você tem um ganho financeiro se resgatar o título naquele momento", afirmou Eid Junior.

Segundo o professor da FGV, o que explicaria uma nova queda dos juros —e a consequente valorização dos títulos— seria o medo de piora da situação econômica desses países.

Bolsa e títulos privados são opções

O investidor que reside em países com taxas de juros negativas precisa, necessariamente, assumir maiores riscos nas suas aplicações para conseguir obter rendimentos positivos.

"Normalmente, um investidor considerado conservador nesses países possui entre 20% e 30% do patrimônio aplicado em ações na Bolsa. O restante pode ser distribuído em títulos privados [emitidos por empresas] de longo prazo, que oferecem taxas melhores do que os títulos públicos de prazo similar", disse Viriato.

Fundos permitem investir no exterior

Segundo ele, os investidores europeus e japoneses também aplicam fora do país, por meio de fundos e outros produtos que sejam atrelados a ativos no exterior.

"Eles podem, por exemplo, aplicar em um ETF que possui ações de empresas brasileiras e de outros países emergentes na carteira."

Mercado imobiliário serve como proteção

Outra forma usada pelos europeus para fugir dos juros negativos é investir em imóveis. Segundo Eid Junior, os imóveis funcionam como uma proteção do patrimônio contra a inflação.

"Em Portugal, os imóveis dobraram de preço nos últimos cinco anos. O problema é que há pouca oferta. É comum ver imóveis antigos fechados. As pessoas não vendem. E há uma demanda grande. Muitos franceses compram imóveis em Portugal para fugir da cobrança de impostos altos na França. Chineses também têm demonstrado grande interesse no mercado imobiliário português", afirmou.

Veja as taxas básicas de juros em alguns países

  • Argentina: 74% ao ano
  • Austrália: 1% ao ano
  • Brasil: 6% ao ano
  • China: 4,35% ao ano
  • Comunidade Europeia: zero (taxa de depósitos de -0,4% ao ano)
  • Dinamarca: 0,05% ao ano
  • Estados Unidos: 2,25% ao ano
  • Inglaterra: 0,75% ao ano
  • Japão: -0,1% ao ano
  • México: 8% ao ano
  • Rússia: 7,5% ao ano
  • Suécia: -0,25% ao ano
  • Suíça: -0,75% ao ano
  • Turquia: 19,75% ao ano

Novas cédulas de 100 e 200 euros entram em circulação

AFP

Finanças pessoais