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Finanças pessoais

Ganho da renda fixa piora com juros em 2% e inflação subindo; veja exemplos

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

16/09/2020 18h27

Resumo da notícia

  • Banco Central mantém taxa básica de juros em 2% ao ano após nove cortes seguidos
  • Com Selic mantida, nada muda no rendimento nominal de poupança, Tesouro Selic e fundo DI
  • Mas como inflação está subindo, o ganho real dessas aplicações fica menor

O Banco Central decidiu manter estável a taxa básica de juros em 2% ao ano, encerrando uma sequência de nove cortes seguidos. Para o investidor, isso significa que aplicações de renda fixa, como poupança, fundos DI e Tesouro Selic, continuam com o mesmo rendimento nominal que vinham apresentando desde 5 de agosto, data da última redução da Selic.

Porém, como a inflação está subindo, o ganho real dessas aplicações está ficando cada vez menor, dizem profissionais de mercado. E a expectativa dos economistas é a de que os índices de preços continuem em alta, prejudicando ainda mais o desempenho desses investimentos.

Quando os preços de produtos e serviços sobem, a pessoa precisa de mais dinheiro para comprar os mesmos itens. O mesmo acontece com os investimentos. Se o rendimento da aplicação em um ano for menor que a variação da inflação no mesmo período, a pessoa estará perdendo dinheiro.

A inflação projetada pelos economistas para 2020, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, é de 1,9%. Para 2021, os mesmos economistas dizem que deve subir para 3%. Assim, o ganho real das aplicações em renda fixa vai ser menor.

Veja abaixo alguns exemplos considerando uma aplicação de R$ 1.000 por um ano e inflação de 3%. Os investimentos que pagam imposto são taxados em 17,5% para saques após 360 dias.

Tesouro Selic

  • Rendimento bruto: R$ 20
  • Rendimento líquido: R$ 16,50 (desconta R$ 3,50 de imposto)
  • Ganho real com inflação de 1,9%: perda de R$ 2,50
  • Ganho real com inflação de 3%: perda de R$ 13,50

Fundo DI (com taxa de administração de 0,5%)

  • Rendimento bruto: R$ 20
  • Rendimento líquido: R$ 12,35 (desconta imposto e taxa de administração)
  • Ganho real com inflação de 1,9%: perda de R$ 6,65
  • Ganho real com inflação de 3%: perda de R$ 17,65

Poupança nova

  • Rendimento bruto: R$ 14 (70% da Selic)
  • Rendimento líquido: R$ 14 (não paga imposto)
  • Ganho real com inflação de 1,9%: perda de R$ 5
  • Ganho real com inflação de 3%: perda de R$ 16

Em 2021, juros devem empatar com inflação

Para economistas, a alta do dólar e o consumo represado por causa da pandemia devem pressionar os índices de preços em 2021, reduzindo ainda mais os ganhos reais das aplicações em renda fixa.

Embora a inflação esteja baixa agora, por causa dos preços dos serviços, que sofreram muito com as medidas de isolamento social, os índices no atacado estão correndo perto de 17% ao ano. E como parte dos contratos são corrigidos pelo IGP-M, como aluguel, educação e saúde, para o ano que vem já vejo a inflação no IPCA mais elevada.
Alexandre Espírito Santo, economista da Órama

Segundo o economista da Órama, por causa dessa inflação em alta, o Banco Central até terá que elevar juros em 2021, mais provavelmente no segundo semestre. Mas será uma alta pequena, elevando a Selic até 3%, para não afetar a economia, ainda em recuperação.

Ou seja, mesmo considerando uma Selic mais alta ano que vem, teremos uma taxa de juros, no máximo, empatada com a inflação.

Migração para renda variável

Para gestores de recursos, a saída para os aplicadores que procuram ganhos reais terá que ser a renda variável —ações, fundos imobiliários etc.—, ou aplicações de renda fixa em crédito privado, como fundos que compram debêntures, LCIs ou CDBs.

Esse movimento já vem ocorrendo. Em agosto, por exemplo, o número de contas de pessoas físicas na Bolsa chegou a 2,9 milhões, crescimento de 81,3% ante 1,6 milhão de contas em 2019. Nos fundos imobiliários, a tendência é a mesma: os aplicadores aumentaram de 645 mil, em janeiro, para 960 mil, em setembro.

"Essa migração deve continuar com certeza. Quem quer um rendimento um pouco mais alto deve correr mais risco, mesmo o mais conservador", afirma a analista da Toro Investimentos Daniela Herrera.

Nem 8 nem 80 na hora de investir

Mas os mesmos gestores de recursos que afirmam ser um desperdício a pessoa deixar todo o dinheiro na renda fixa destacam que o aplicador também não pode mudar radicalmente e colocar tudo na renda variável.

Investimentos em produtos de risco devem compor a maior parte da carteira de longo prazo —ou seja, aquele dinheiro que pode ficar parado por mais de cinco anos, com objetivos claros, como bancar a aposentadoria, comprar um imóvel, pagar os estudos dos filhos, fazer a viagem dos sonhos.

Não adianta querer que o dinheiro se multiplique de um dia para o outro.
Daniel Herrera, Toro Investimentos

Renda fixa para reserva de emergência e longo prazo

Segundo profissionais de mercado, investimentos com objetivos dentro de um horizonte abaixo de um ano e para o dinheiro separado para casos de emergência, a renda fixa é importante.

"O maior objetivo da renda fixa tradicional não é rendimento, mas proteger o valor do patrimônio. Por isso, essa aplicação precisa ter liquidez, com a possibilidade de resgate a qualquer momento, sem risco de perdas nominais", afirma o responsável pela área comercial do BNP Paribas Asset Management, Aquiles Mosca.

Segundo ele, além da reserva de emergência, a renda fixa também pode funcionar como parte de caixa numa carteira de longo prazo, diz o executivo do BNP, destacando que é possível buscar retornos mais elevados em renda fixa aplicando em ativos com prazos mais longos.

A renda fixa ajuda a reduzir o risco das carteiras dos investidores, especialmente para quem não tem perfil de risco agressivo.
Aquiles Mosca, BNP Paribas Asset Management

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